Ressurreição, Escatologia e Messianismo no Judaísmo do Segundo Templo e sua Reinterpretação no Cristianismo Primitivo



A escatologia judaica do período do Segundo Templo constitui o pano de fundo indispensável para a compreensão do surgimento do Cristianismo Primitivo. Longe de representar uma ruptura total com o judaísmo de sua época, o Cristianismo nasce inserido em suas categorias fundamentais: ressurreição, juízo, restauração de Israel e esperança messiânica. No entanto, a proclamação cristã introduz uma reconfiguração decisiva dessas expectativas a partir do evento histórico associado a Jesus de Nazaré, particularmente sua morte por crucificação e a afirmação de sua ressurreição individual no interior da História. Neste artigo argumentaremos que o Cristianismo Primitivo preserva a estrutura escatológica judaica, mas a reinterpreta de forma radical ao afirmar que aquilo que era esperado como evento coletivo e final ocorreu antecipadamente em um indivíduo concreto. Tal afirmação constitui algo peculiar e notório — e profundamente problemático — dentro das convenções religiosas judaicas do período.

2. A Escatologia Judaica do Segundo Templo: Estrutura Geral

A literatura do Segundo Templo revela um conjunto plural, porém coerente, de expectativas escatológicas. Textos como o Livro de Daniel, 1 Enoque, Jubileus e 2 Macabeus demonstram que a escatologia judaica emerge como resposta teológica a crises históricas sucessivas: dominação estrangeira, perseguição aos fiéis e aparente fracasso da justiça divina¹.

Três elementos estruturam esse horizonte:

Intervenção futura de Deus na História

Ressurreição dos mortos

Juízo escatológico e restauração de Israel

A ressurreição, em particular, não é uma crença universal no judaísmo antigo, mas uma inovação escatológica tardia, ligada ao problema da teodiceia². Em Daniel 12, a ressurreição aparece como evento futuro, coletivo e associado ao juízo final, ainda que com consequências individuais.

3. Ressurreição: Coletiva no Evento, Individual no Destino

De modo geral, a ressurreição no judaísmo do Segundo Templo é:

Escatológica: ocorre no fim dos tempos

Coletiva: envolve grupos (“os justos”, “os ímpios”) Corporal: rejeita a imortalidade platônica da alma

Entretanto, textos como 2 Macabeus 7 introduzem uma intensificação do elemento individual, ao apresentar mártires específicos que esperam ser ressuscitados por Deus³. Ainda assim, mesmo nesses textos, a ressurreição permanece vinculada a um evento futuro comum, não a uma experiência isolada no presente histórico.

4. Messianismo Judaico e o Escândalo da Crucificação

O Messianismo do Segundo Templo é igualmente plural: real, sacerdotal, profético ou até duplo, como em Qumran⁴. Contudo, há um ponto de convergência negativo: não existe expectativa de um messias que morre derrotado e executado pelo poder gentílico. A crucificação romana era um símbolo máximo de maldição, humilhação e fracasso. Como observa Martin Hengel, a ideia de um “messias crucificado” era não apenas teologicamente problemática, mas socialmente absurda⁵. Um messias morto não era um messias fracassado temporariamente — era simplesmente um falso messias.

5. A Reinterpretação Cristã: Ressurreição no Meio da História

É nesse contexto que a proclamação cristã se mostra singular. Os primeiros cristãos afirmam que Deus ressuscitou Jesus de Nazaré de maneira:

Individual

Corporal

Histórica

Escatológica

Essa combinação é inédita. A Ressurreição de Jesus não é descrita como mera revivificação, nem como ascensão espiritual, mas como ressurreição escatológica antecipada⁶. N. T. Wright sintetiza essa novidade ao afirmar que o Cristianismo Primitivo não deslocou a ressurreição para o céu, mas trouxe o “fim” para dentro da História⁷. O que se esperava para “o último dia” teria ocorrido em um dia específico, com um indivíduo identificável.

6. “Primícias” e Escatologia Inaugurada

A teologia paulina preserva o caráter coletivo da esperança judaica ao afirmar que a ressurreição de Jesus é apenas o início. Em 1 Coríntios 15, Jesus é chamado de “primícias”, termo agrícola que pressupõe uma colheita futura⁸.

Assim, o Cristianismo não abandona a escatologia judaica, mas a reorganiza em uma tensão entre:

Já: a Ressurreição de Jesus

Ainda não: a Ressurreição geral dos mortos

Essa estrutura, frequentemente chamada de “escatologia inaugurada”, mantém a esperança coletiva, mas introduz um precedente histórico singular.

7. Por que isso foi inaceitável para o judaísmo do período?

Do ponto de vista judaico do Segundo Templo, a proclamação cristã cria múltiplas tensões:

Um messias que morre sob maldição (Crucificação);

Uma ressurreição escatológica fora do tempo esperado;

Um indivíduo recebendo antecipadamente o destino do fim.

Como observa Paula Fredriksen, o desacordo não era apenas cristológico, mas temporal e escatológico⁹. O problema não era afirmar a ressurreição, mas afirmar quando e em quem ela teria ocorrido.

8. Conclusão: Continuidade, Ruptura e Originalidade Histórica

O Cristianismo Primitivo não nasce como negação da escatologia judaica, mas como sua releitura radical à luz de um evento histórico interpretado como revelatório. A ressurreição de Jesus funciona como uma “anomalia escatológica”: um acontecimento que, segundo as categorias existentes, não deveria acontecer, mas que, uma vez afirmado, exige a reorganização de todo o sistema teológico.

Essa reinterpretação explica simultaneamente:

A rápida expansão do cristianismo

Sua separação progressiva do judaísmo

A persistência de categorias profundamente judaicas em sua teologia

Em termos históricos, a originalidade do Cristianismo não reside apenas na crença na ressurreição, mas na afirmação de que o fim começou no meio da história, em um crucificado judeu do século I. Essa afirmação permanece, ainda hoje, tão intelectualmente provocadora quanto religiosamente divisiva.

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Referências

[1] COLLINS, John J. The Apocalyptic Imagination: An Introduction to Jewish Apocalyptic Literature. 3. ed. Grand Rapids: Eerdmans, 2016.

[2] NICKELSBURG, George W. E. Resurrection, Immortality, and Eternal Life In Intertestamental Judaism. 2. ed. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2006.

[3] DESILVA, David A. 4 Maccabees: Introduction And Commentary On The Greek Text. Leiden: Brill, 1998.

[4] VANDERKAM, James C. The Dead Sea Scrolls Today. 2. ed. Grand Rapids: Eerdmans, 2010.

[5] HENGEL, Martin. Crucifixion: In The Ancient World and the Folly of the Message of the Cross. Philadelphia: Fortress Press, 1977.

[6] WRIGHT, N. T. The Resurrection Of The Son of God. Minneapolis: Fortress Press, 2003.

[7] WRIGHT, N. T. Surprised By Hope: Rethinking Heaven, The Resurrection, and The Mission of the Church. New York: HarperOne, 2008.

[8] DUNN, James D. G. The Theology Of Paul the Apostle. Grand Rapids: Eerdmans, 1998.

[9] FREDRIKSEN, Paula. From Jesus to Christ: The Origins Of The New Testament Images Of Jesus. 2. ed. New Haven: Yale University Press, 2000.

DIOGO J. SOARES

Doutor (Ph.D.) em Novo Testamento/Exegese e Literatura Cristã Primitiva pelo Seminário Bíblico de São Paulo (FETSB); Mestre (M.A.) em Estudos Bíblicos pela Faculdade Teológica Integrada; (Th.B.) pelo Seminário Unido do Rio de Janeiro (STU). Possuí Especialização em Ciências Bíblicas e Interpretação pelo Seminário Teológico Filadelfia/PR (SETEFI). Bacharel (B.A.) em História Antiga, Social e Comparada pela Universidade de Uberaba (UNIUBE/MG).É historiador, biblista, teólogo e apologista cristão evangélico.

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