Entre os escritos judaicos e cristãos apócrifos* e pseudoepigrafos* do período do Segundo Templo, três obras atribuídas pseudonimamente a Salomão — Sabedoria de Salomão, Salmos de Salomão e Odes de Salomão — ocupam posição singular na história do pensamento religioso judaico antigo. Embora compartilhem a autoridade literária do nome salomônico, diferem profundamente quanto à origem, teologia, função literária e proximidade com o Cristianismo Nascente. No presente estudo proporemos uma análise histórica e teológica comparativa dessas obras, avaliando suas ênfases principais e examinando em que medida cada uma se aproxima do querigma* do Cristianismo Primitivo e da Teologia do Novo Testamento. Argumenta-se que, embora todas pertençam ao mesmo amplo horizonte judaico-cristão, elas representam três estágios distintos de desenvolvimento teológico: (1) judaísmo sapiencial helenístico, (2) piedade nacional-messiânica judaica e (3) misticismo cristão primitivo.
1. Contexto histórico e natureza literária
1.1 Sabedoria de Salomão
A Sabedoria de Salomão é geralmente datada do final do século I a.C., provavelmente em Alexandria. Trata-se de uma obra do judaísmo helenístico escrita em grego, que busca demonstrar a superioridade da fé judaica por meio de categorias filosóficas familiares ao mundo greco-romano.¹ David A. deSilva observa que o livro funciona como uma exortação parenética dirigida especialmente às elites governantes, conclamando-as à justiça como caminho para a vida verdadeira.² A obra combina teologia bíblica com linguagem filosófica, especialmente no tratamento da imortalidade e da sabedoria.
1.2 Salmos de Salomão
Os Salmos de Salomão, por sua vez, são geralmente situados em meados do século I a.C., em contexto palestino, provavelmente como reação à conquista romana de Jerusalém (63 a.C.).³ Diferentemente da Sabedoria, esta obra é profundamente enraizada na piedade judaica nacional. Seu caráter é litúrgico e imprecativo. Os salmos expressam: lamento pela corrupção interna; denúncia dos ímpios e esperança num Messias davídico restaurador. Segundo James C. VanderKam, o documento reflete “as expectativas messiânicas intensas do judaísmo do Segundo Templo”, especialmente a esperança de um rei justo que purifique Jerusalém.⁴
1.3 Odes de Salomão
As Odes de Salomão pertencem a um contexto significativamente posterior, sendo geralmente datadas entre o final do século I e início do II d.C. A maioria dos estudiosos as considera produto do cristianismo primitivo de língua siríaca.⁵ Diferentemente das outras obras, as Odes são: hinos místicos e altamente simbólicos e centrados na experiência de salvação. J. H. Charlesworth argumenta que elas preservam “uma das mais antigas vozes da espiritualidade cristã”.⁶
2. Ênfases teológicas principais
2.1 Justiça e imortalidade na Sabedoria de Salomão
A teologia da Sabedoria articula uma forte conexão entre justiça, sabedoria e imortalidade. O texto afirma programaticamente: “a justiça é imortal” (1:15). DeSilva enfatiza que, para o autor, a imortalidade é dom concedido por Deus aos que vivem em conformidade com a Sabedoria, não uma propriedade natural da alma.⁷
Elementos centrais incluem:
Vindicação escatológica dos justos, crítica ao materialismo dos ímpios, universalização da ética sapiencial e forte linguagem de providência divina.
Importante notar que o livro evita o apocalipticismo dramático típico de outros textos do período, preferindo argumentação moral e filosófica — característica destacada por VanderKam.⁸
2.2 Messianismo e juízo nos Salmos de Salomão
Nos Salmos de Salomão, a ênfase desloca-se para a história nacional e para a esperança messiânica concreta. O famoso Salmo 17 descreve um Messias davídico que:
expulsará os pecadores, purificará Jerusalém e governará com justiça.
Aqui encontramos forte dualismo ético entre justos e ímpios, mas a vindicação é predominantemente histórico-política, não mística nem filosófica. R. B. Wright observa que o messianismo do livro é “intensamente terreno e davídico”, refletindo expectativas judaicas pré-cristãs.⁹ Isso o distancia de aspectos centrais do querigma cristão, especialmente a ênfase na morte e ressurreição do Messias.
2.3 Misticismo salvífico nas Odes de Salomão
As Odes representam um salto qualitativo. Seus temas incluem: novo nascimento, habitação do Espírito, união com o Filho e linguagem de vida eterna presente.
Charlesworth observa que o autor das Odes já opera dentro de uma teologia que pressupõe a experiência cristã da salvação.¹⁰
Particularmente notável é a linguagem de: filiação divina, luz e vida e salvação já inaugurada.
Esses elementos aproximam o texto especialmente da teologia joanina.
3. Aproximações com o Novo Testamento e o querigma primitivo
3.1 Convergências parciais da Sabedoria de Salomão
A Sabedoria apresenta várias antecipações conceituais do Novo Testamento: linguagem sobre “filhos de Deus” (cf. Sb 2:13), tema da perseguição do justo, imortalidade dos justos e personificação quase hipostática da Sabedoria
Diversos estudiosos notam paralelos com Romanos, Hebreus e João. Contudo, as diferenças permanecem significativas: ausência de cristologia histórica, nenhuma referência à cruz e imortalidade concebida sobretudo em termos sapiencial-éticos.
Assim, a obra funciona melhor como ponte conceitual do que como expressão do querigma.
3.2 Distância querigmática dos Salmos de Salomão
Apesar de seu forte messianismo, os Salmos permanecem relativamente distantes do núcleo da pregação cristã primitiva.
Convergências: expectativa de um Messias davidico, ênfase na justiça de Deus e julgamento dos ímpios.
Divergências decisivas:
Messias puramente político, ausência de sofrimento redentor e ausência de universalismo salvífico
Como observa VanderKam, o messianismo judaico do período era “mais restauracionista do que redentor”.¹¹
3.3 Forte proximidade das Odes de Salomão
Entre as três obras, as Odes são as que mais se aproximam do querigma cristão.
Elementos convergentes incluem:
linguagem de novo nascimento, soteriologia experiencial, presença do Espírito, união com o Filho e tom litúrgico cristão
Vários estudiosos notam paralelos especialmente com:
Evangelho de João
1 João
Efésios
Embora o texto não narre a vida de Jesus, sua teologia pressupõe claramente o ambiente cristão primitivo.
4. Síntese comparativa
A comparação entre a Sabedoria de Salomão, os Salmos de Salomão e as Odes de Salomão revela três perfis teológicos e históricos claramente distintos dentro do amplo horizonte judaico-cristão do período do Segundo Templo. Os Salmos de Salomão refletem um judaísmo palestino profundamente marcado pela esperança messiânica davídica e por uma teologia de vindicação sobretudo histórico-nacional, na qual a restauração de Israel ocupa lugar central. A Sabedoria de Salomão, por sua vez, representa o judaísmo helenístico de matriz alexandrina, articulando uma síntese entre tradição bíblica e filosofia grega e deslocando o eixo da esperança para uma vindicação de caráter mais universal e escatológico, mediada pela prática da justiça e pela participação na Sabedoria divina. Já as Odes de Salomão testemunham um estágio posterior, no qual a linguagem soteriológica assume contornos explicitamente cristãos, enfatizando a experiência presente da salvação, o novo nascimento e a comunhão com Deus por meio de uma espiritualidade de tonalidade mística. Consideradas em conjunto, as três obras evidenciam uma progressão significativa: do messianismo restauracionista dos Salmos, passando pela reflexão sapiencial universalizante da Sabedoria, até a interiorização místico-salvífica das Odes. Em termos de proximidade com o Novo Testamento, essa trajetória torna-se ainda mais nítida: enquanto os Salmos de Salomão oferecem sobretudo o pano de fundo das expectativas messiânicas judaicas, a Sabedoria de Salomão fornece categorias conceituais que dialogam com a teologia neotestamentária, e as Odes de Salomão se aproximam de modo mais direto da linguagem e da experiência religiosa do Cristianismo Primitivo.
Conclusão
A análise histórica e teológica demonstra que os três escritos pseudepígrafos representam momentos distintos da evolução do pensamento judaico-cristão. Os Salmos de Salomão preservam a piedade nacional e o messianismo restauracionista do judaísmo do Segundo Templo, oferecendo importante pano de fundo para entender as expectativas messiânicas contemporâneas a Jesus, mas permanecendo relativamente distantes do querigma cristão. A Sabedoria de Salomão ocupa posição intermediária e estratégica. Sua síntese entre teologia judaica e filosofia grega prepara o terreno conceitual para categorias que o Novo Testamento posteriormente mobiliza — especialmente no que tange à imortalidade, à filiação divina e à vindicação do justo. Contudo, sua soteriologia permanece ética-sapiencial, não cristológica. As Odes de Salomão, por fim, refletem já um estágio claramente cristão da tradição. Seu misticismo, sua linguagem de novo nascimento e sua ênfase na vida divina presente revelam notável proximidade com a espiritualidade joanina e com a experiência cultual da igreja primitiva. Conclui-se, portanto, que a verdadeira linha de continuidade com o querigma cristão não é uniforme entre os três escritos: os Salmos fornecem o pano de fundo messiânico; a Sabedoria oferece a ponte conceitual; as Odes testemunham a internalização cristã plena desses temas. Essa progressão ilumina de modo significativo o ambiente judaico intelectual e espiritual no qual o Novo Testamento emergiu, mostrando que o Cristianismo Primitivo não surgiu no vácuo, mas no interior de um complexo e dinâmico ecossistema judeu do Segundo Templo.
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Referências
[1] DESILVA, David A. Introducing the Apocrypha: Message, Context, and Significance. Grand Rapids: Baker Academic, 2002.
[2] DESILVA, David A. Introducing the Apocrypha: Message, Context, and Significance. Grand Rapids: Baker Academic, 2002.
[3] WRIGHT, R. B. Psalms of Solomon. In: CHARLESWORTH, James H. (ed.). The Old Testament Pseudepigrapha. New York: Doubleday, 1985. v. 2.
[4] VANDERKAM, James C. An Introduction to Early Judaism. Grand Rapids: Eerdmans, 2001.
[5] CHARLESWORTH, James H. The Odes of Solomon. Oxford: Clarendon Press, 1973.
[6] CHARLESWORTH, James H. The Odes of Solomon. Oxford: Clarendon Press, 1973.
[7] DESILVA, David A. Introducing the Apocrypha: Message, Context, and Significance. Grand Rapids: Baker Academic, 2002.
[8] VANDERKAM, James C. An Introduction to Early Judaism. Grand Rapids: Eerdmans, 2001.
[9] WRIGHT, R. B. Psalms of Solomon. In: CHARLESWORTH, James H. (ed.). The Old Testament Pseudepigrapha. New York: Doubleday, 1985. v. 2.
[10] CHARLESWORTH, James H. The Odes of Solomon. Oxford: Clarendon Press, 1973.
[11] VANDERKAM, James C. An Introduction to Early Judaism. Grand Rapids: Eerdmans, 2001.
Notas*
Pseudoepigrafos: Pseudoepígrafos são escritos judaicos e cristãos antigos atribuídos pseudonimamente a figuras veneradas do passado (p. ex., Salomão, Enoque, Moisés), embora compostos por autores posteriores. O termo deriva do grego pseudepigraphos (“falsamente atribuído”). No contexto do período do Segundo Templo (c. 516 a.C.–70 d.C.), essa prática literária foi comum como meio de: conferir autoridade tradicional ao ensino; atualizar a revelação para novas circunstâncias históricas; inserir novas reflexões teológicas na continuidade da tradição. Entre os exemplos relevantes estão Salmos de Salomão, Odes de Salomão e 1 Enoque. Em sentido acadêmico, o termo descreve um fenômeno literário característico do judaísmo do Segundo Templo, sem implicar necessariamente intenção de fraude nos moldes modernos.
Apócrifo: Apócrifos são escritos religiosos antigos de origem judaica ou cristã que, embora amplamente lidos e valorizados em certas comunidades, não foram incluídos no cânon bíblico de todas as tradições. O termo deriva do grego apókryphos (“oculto”, “não público”). No contexto do período do Segundo Templo (c. 516 a.C.–70 d.C.) e de seus desdobramentos imediatos, esses textos surgem como parte da produção literária judaica que circulava paralelamente às Escrituras reconhecidas, frequentemente com funções: edificantes e litúrgicas; sapiencais ou históricas; interpretativas da tradição bíblica. Exemplos clássicos incluem Sabedoria de Salomão, Eclesiástico e Tobias. Em uso acadêmico, “apócrifo” é uma categoria canônica e histórica, não necessariamente um juízo de valor sobre o conteúdo do texto.
Querigma (Cristianismo Primitivo):
Querigma (do grego kḗrygma, “proclamação”, "pregação" ou “anúncio”) designa, em estudos do Cristianismo Primitivo, o núcleo essencial da pregação apostólica sobre Jesus de Nazaré. No contexto do século I d.C., o termo refere-se à mensagem pública proclamada pela igreja nascente, especialmente conforme refletida nos discursos de Atos e em fórmulas primitivas preservadas nas cartas paulinas. Elementos centrais do querigma - De modo sintético, o querigma primitivo anunciava: o cumprimento das promessas de Deus em Jesus; a morte redentora de Cristo; a ressurreição como vindicação divina; a exaltação de Jesus como Senhor; o chamado ao arrependimento e à fé e a promessa de salvação escatológica. Função histórica - No cristianismo primitivo, o querigma funcionava como: proclamação missionária pública; resumo normativo da fé apostólica; fundamento da catequese e da formação comunitária. Em sentido acadêmico, o termo não se refere a um único texto fixo, mas a um padrão proclamativo reconhecível na tradição mais antiga da igreja.
