Amenófis II e o Êxodo: uma análise histórica da hipótese da cronologia antiga

 









      A identificação do faraó do Êxodo constitui um dos temas mais debatidos na historiografia do Antigo Oriente Próximo. A ausência de um texto egípcio que mencione explicitamente a saída dos israelitas do Egito levou ao surgimento de diferentes propostas cronológicas, entre as quais se destacam aquelas que identificam o faraó do Êxodo com Ramsés II, Merneptá ou Amenófis II. Embora a primeira tenha prevalecido em boa parte da pesquisa contemporânea especializada, um número significativo de historiadores, arqueólogos e biblistas sustenta que a cronologia do século XV a.C. oferece melhor correspondência entre o texto bíblico e a documentação egípcia disponível.¹ Essa hipótese fundamenta-se na convergência entre a cronologia interna da Bíblia, a sucessão dos faraós da XVIII Dinastia, o contexto político do Reino Novo e determinadas evidências arqueológicas. Nenhum desses elementos, isoladamente, comprova a identificação de Amenófis II como o faraó do Êxodo; entretanto, considerados em conjunto, constituem uma reconstrução histórica coerente.

A Cronologia bíblica e a XVIII Dinastia

O principal fundamento da cronologia antiga encontra-se em 1 Reis 6:1, segundo o qual a construção do templo de Salomão ocorreu quatrocentos e oitenta anos após o Êxodo.² Admitindo-se o quarto ano do reinado de Salomão em torno de 966 a.C., obtém-se aproximadamente 1446 a.C. como data para a saída dos israelitas do Egito. Leon J. Wood argumenta que essa cronologia harmoniza-se com a sucessão da XVIII Dinastia, situando Tutmés III como o faraó da opressão e Amenófis II como o governante durante o Êxodo.³ Outros estudiosos como Beitzel consideram que essa reconstrução preserva maior coerência entre os dados bíblicos e o contexto histórico do Reino Novo.⁴

As Evidências históricas

Amenófis II herdou um império consolidado pelas campanhas militares de seu pai, Tutmés III. Nos primeiros anos de seu reinado conduziu expedições à Síria-Palestina para reafirmar o domínio egípcio sobre Canaã. Esses acontecimentos encontram-se registrados em inscrições oficiais, especialmente nas estelas de Amada, Karnak e Elefantina.⁵ Entre os monumentos mais relevantes do reinado de Amenófis II destaca-se a Estela de Elefantina, descoberta na ilha de Elefantina, próxima à primeira catarata do Nilo. Datada do terceiro ano de seu reinado, a inscrição foi erigida no templo do deus pagão Khnum e integra o conjunto de estelas comemorativas destinadas a celebrar as campanhas militares do faraó na Síria-Palestina. Sua importância transcende a descrição de feitos militares, pois constitui um testemunho privilegiado da ideologia política e religiosa que sustentava a monarquia egípcia durante a XVIII Dinastia.⁶ A inscrição inicia-se com a tradicional titulatura real, apresentando Amenófis II como soberano escolhido pelos deuses e legítimo sucessor de Tutmés III. O texto descreve o faraó como um rei de força extraordinária, capaz de manejar o arco e dominar os cavalos de guerra com habilidade superior à de qualquer outro homem. Essa ênfase em suas capacidades físicas não possui apenas caráter laudatório; ela integra um modelo ideológico segundo o qual o faraó era concebido como a personificação da ordem (Maat), investido pelos deuses para preservar o equilíbrio do universo e derrotar as forças do caos. A parte central da estela relata a primeira campanha asiática de Amenófis II. O faraó afirma ter atravessado o Sinai em direção às cidades sob domínio egípcio na Palestina e na Síria para reprimir rebeliões e reafirmar a soberania do Egito. A narrativa de forma intrigrante descreve a captura de chefes inimigos, a apreensão de carros de guerra, cavalos, armas, metais preciosos e um grande contingente de prisioneiros levados ao Egito. As listas de espólios e cativos refletem o padrão literário das inscrições militares do Reino Novo, cujo propósito era demonstrar que o faraó mantinha intacta a hegemonia egípcia sobre Canaã e o corredor sírio-palestino. Particularmente significativa é a descrição da execução pública de líderes inimigos. A estela afirma que alguns chefes foram mortos pelo próprio faraó e expostos como demonstração do triunfo egípcio, enquanto outros foram levados ao sul e exibidos em Núbia como advertência contra futuras rebeliões. Para Betsy M. Bryan, esse tipo de narrativa não deve ser interpretado apenas como relato factual, mas como expressão da ideologia imperial da XVIII Dinastia, na qual a violência ritualizada simbolizava a restauração da ordem cósmica mediante a derrota dos inimigos do Egito.⁵ Do ponto de vista historiográfico, a Estela de Elefantina é particularmente importante porque evidencia a natureza seletiva das inscrições oficiais egípcias. Assim como outras estelas comemorativas do Reino Novo, o monumento apresenta exclusivamente sucessos militares, omitindo dificuldades logísticas, perdas humanas ou eventuais reveses. Kitchen observa precisamente que esse padrão caracteriza praticamente toda a documentação régia egípcia, cuja finalidade era legitimar o governo do faraó e não produzir uma narrativa histórica imparcial.⁷ Currid acrescenta que essa característica metodológica impede utilizar o silêncio das fontes egípcias acerca do Êxodo como argumento decisivo contra sua historicidade, pois derrotas militares ou acontecimentos que comprometessem a imagem do soberano dificilmente seriam registrados em monumentos destinados à propaganda estatal.⁴

A Estela de Elefantina também fornece importantes informações sobre o contexto geopolítico do século XV a.C. A necessidade de Amenófis II realizar campanhas logo no início de seu reinado revela que a manutenção do império asiático exigia constante demonstração de força. As cidades-Estado cananeias permaneciam vinculadas ao Egito, mas apresentavam frequentes focos de instabilidade, exigindo intervenções militares periódicas. Hoffmeier observa consistentemente que esse quadro corresponde ao cenário político pressuposto pelos relatos bíblicos do Êxodo e da conquista, nos quais Canaã aparece sob influência egípcia, embora administrada por governantes locais submetidos ao faraó.¹

Assim, a Estela de Elefantina não constitui uma evidência direta do Êxodo nem menciona os israelitas. Sua relevância reside em outro aspecto: ela confirma o perfil histórico de Amenófis II como governante ativo, militarmente experiente e profundamente comprometido com a ideologia imperial do Reino Novo. Além disso, exemplifica a natureza propagandística da documentação faraônica, elemento essencial para compreender por que acontecimentos potencialmente desastrosos para a monarquia, caso tenham ocorrido, dificilmente seriam preservados na memória oficial do Estado egípcio. Outro elemento frequentemente discutido é a sucessão de Amenófis II. Seu sucessor foi Tutmés IV, cuja Estela do Sonho, erguida junto à Grande Esfinge de Gizé, apresenta sua ascensão ao trono como resultado de uma escolha divina. William H. Shea e Charles Aling sugerem que esse texto pode indicar uma sucessão incomum, possivelmente compatível com a perda do herdeiro originalmente destinado ao trono.⁸ Embora essa interpretação permaneça debatida, ela ilustra como a documentação egípcia admite diferentes leituras historiográficas.

A Contribuição da arqueologia

A descoberta da tumba KV35 por Victor Loret, em 1898, forneceu novos elementos para o estudo do reinado de Amenófis II. Além da múmia do faraó, foram encontrados diversos membros da família real, entre eles o príncipe Webensenu, identificado como um dos filhos de Amenófis II.⁹ Alguns defensores da cronologia antiga sugerem que essa descoberta poderia relacionar-se à morte do primogênito narrada no Êxodo. Entretanto, Hoffmeier ressalta que a documentação arqueológica não permite afirmar que Webensenu fosse o primogênito nem estabelecer a causa de sua morte.¹⁰ Também merece destaque o contexto arqueológico de Canaã. Muitos estudiosos como Bryant G. Wood, argumentam que parte das evidências provenientes de cidades como Jericó e Hazor pode ser interpretada de forma compatível com uma conquista israelita ocorrida no final do século XV a.C., ainda que essa leitura seja contestada por outros arqueólogos.¹¹

Considerações finais

A hipótese que identifica Amenófis II como o faraó do Êxodo permanece objeto de debate e não representa consenso entre os egiptólogos. Contudo, sua importância reside na convergência entre diferentes linhas de evidência. A cronologia bíblica, a sucessão da XVIII Dinastia, o contexto político do Reino Novo, a Estela de Elefantina, a Estela do Sonho, a tumba KV35 e determinados dados arqueológicos de Canaã formam um conjunto historicamente consistente que explica por que diversos estudiosos, incluindo o presente autor continuam a considerar Amenófis II o candidato mais plausível. Sob a perspectiva historiográfica, o valor dessa hipótese não decorre da existência de uma prova isolada, mas da capacidade de integrar fontes textuais, arqueológicas e históricas em uma reconstrução coerente. Embora novas descobertas possam modificar esse quadro, a identificação de Amenófis II permanece uma das propostas mais bem fundamentadas entre os defensores da cronologia antiga do Êxodo.

_______________________________

Referências

[1] WOOD, Leon J. A Survey of Israel's History. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1970; HOFFMEIER, James K. Israel in Egypt: The Evidence for the Authenticity of the Exodus Tradition. New York: Oxford University Press, 1996.

[2] BÍBLIA. Antigo Testamento. 1 Reis 6:1. Para uma discussão cronológica, ver: MERRILL, Eugene H. Kingdom of Priests: A History of Old Testament Israel. 2. ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2008.

[3] WOOD, Leon J. A Survey of Israel's History. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1970.

[4] CURRID, John D. Ancient Egypt and the Old Testament. Grand Rapids: Baker Books, 1997; MERRILL, Eugene H. Kingdom of Priests: A History of Old Testament Israel. 2. ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2008; BEITZEL, Barry J. The Moody Bible Atlas. Grand Rapids: Moody Publishers, 2009.

[5] BRYAN, Betsy M. "The Eighteenth Dynasty Before the Amarna Period". In: SHAW, Ian (ed.). The Oxford History of Ancient Egypt. Oxford: Oxford University Press, 2000, p. 218–271.

[6] KUENTZ, Charles. Deux stèles d'Aménophis II: stèles d'Amada et d'Éléphantine. Le Caire: Institut Français d'Archéologie Orientale, 1925 (Bibliothèque d'Étude, 10); HELCK, Wolfgang. Urkunden der 18. Dynastie. Berlin: Akademie-Verlag, 1955. v. IV, n. 374; KLUG, Andrea. Königliche Stelen in der Zeit von Ahmose bis Amenophis III. Turnhout: Brepols, 2002, p. 278–285; PIERRE, Camille. "La stèle d'Aménophis II au VIIIe pylône de Karnak". BABELAO – Bulletin de l'Académie Belge pour l'Étude des Langues Anciennes et Orientales, v. 12, p. 11–28, 2023.

[7] KITCHEN, Kenneth A. On the Reliability of the Old Testament. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 2003; CURRID, John D. Ancient Egypt and the Old Testament. Grand Rapids: Baker Books, 1997.

[8] SHEA, William H. "Amenhotep II as Pharaoh of the Exodus". Bible and Spade, v. 16, n. 3, p. 67–80, 1987; ALING, Charles F. "The Date of the Exodus". Bibliotheca Sacra, Dallas, v. 130, n. 517, p. 40–53, 1973.

[9] LORET, Victor. La Tombe d'Aménophis II et la Cachette Royale de Bibân el-Molouk. Paris: Imprimerie Nationale, 1900; DODSON, Aidan; HILTON, Dyan. The Complete Royal Families of Ancient Egypt. London: Thames & Hudson, 2004.

[10] HOFFMEIER, James K. Israel in Egypt: The Evidence for the Authenticity of the Exodus Tradition. New York: Oxford University Press, 1996.

[11] WOOD, Bryant G. "Did the Israelites Conquer Jericho? A New Look at the Archaeological Evidence". Biblical Archaeology Review, Washington, D.C., v. 16, n. 2, p. 44–58, 1990; BIMSON, John J. Redating the Exodus and Conquest. 2. ed. Sheffield: Almond Press, 1981; PETROVICH, Douglas. The World's Oldest Alphabet: Hebrew as the Language of the Proto-Consonantal Script. Jerusalem: Carta, 2016.

DIOGO J. SOARES

Doutor (Ph.D.) em Religião e Novo Testamento/Cristianismo Primitivo pelo Seminário Bíblico de São Paulo (FETSB); Mestre (M.A.) em Literatura Bíblica pela Faculdade Teológica Integrada; graduado (Th.B.) pelo Seminário Unido do Rio de Janeiro (STU). Possuí Especialização em Ciências Bíblicas e Interpretação pelo Seminário Teológico Filadelfia/PR (SETEFI). Bacharel (B.A.) em História Antiga, Social e Comparada pela Universidade de Uberaba/MG (UNIUBE).É historiador, biblista, teólogo e apologista cristão evangélico. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-8697-3447 LATTES: https://lattes.cnpq.br/3841881849845089

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem