A Marcha Teofânica De YHWH pelo Deserto: Uma Análise Exegética da Literatura Bíblica

 



1. Introdução ao Problema e ao Debate Acadêmico

As tradições bíblicas que mencionam YHWH/Javé ou Senhor em nossas traduções bíblicas atuais surgindo das regiões meridionais do deserto — como Sinai, Seir, Parã e Temã — constituem um dos componentes mais sugestivos da poesia e da profecia hebraica. Textos como Deuteronômio 33:2, Juízes 5:4–5, Salmo 68 e Habacuque 3:3 descrevem Deus marchando, brilhando, vindo ou se manifestando a partir desses pontos geográficos. Ao longo do último século e meio, alguns setores da pesquisa histórica e comparativa da religião propuseram que tais referências possam refletir uma “origem geográfica” de YHWH, possivelmente como um deus tribal edomita ou do deserto meridional. Entre os estudiosos que consideraram essa hipótese estão Frank Moore Cross [1], John Day [2] e Mark S. Smith [3], embora cada um a trate com diferentes níveis de viabilidade e nuance. Por outro lado, exegetas e biblistas como Gerhard von Rad [4] e Walter Brueggemann [5] têm demonstrado que tais textos pertencem a gêneros literários e teológicos específicos — hinos teofânicos, poesia litúrgica e profecia poética — que empregam geografia de maneira simbólica, evocativa e não literal. O contraste entre essas abordagens gera um debate importante: seriam Sinai, Seir, Parã e Temã indicativos de uma procedência da divindade, ou seriam a linguagem poética tradicional pela qual Israel descrevia as manifestações salvíficas de seu Deus? Neste estudo articularemos ambas as perspectivas, avaliaremos suas propostas e apresentaremos ao final uma síntese exegética que se fundamenta no texto bíblico e no contexto literário antigo.

2. Geografia Simbólica e Memória Histórica: O Papel de Sinai, Seir, Parã e Temã

As quatro regiões mencionadas — Sinai, Seir, Parã e Temã — formam um arco territorial que se estende do noroeste da Arábia ao sul de Canaã. No imaginário bíblico, essas áreas fazem parte de um conjunto geográfico que envolve o deserto, os montes do sul e o território associado a Edom.

2.1 Sinai como Locus da Aliança

O Sinai representa, na memória de Israel, o lugar da revelação da Torá e do estabelecimento da aliança. Assim, quando os textos bíblicos evocam o Sinai, não o fazem como referência a um possível “ponto de origem” de Deus, mas como o cenário mais importante da revelação e do início da caminhada histórica do povo.

2.2 Seir e Temã como Áreas Edomitas e Espaço Teofânico

Seir é frequentemente associado aos territórios de Edom, e Temã, região conhecida por sabedoria e tradição, aparece como parte do mesmo horizonte cultural. A literatura hebraica recorre a essas regiões como pontos simbólicos de partida das marchas teofânicas do Deus Verdadeiro e Guerreiro, especialmente no Cântico de Débora e em Habacuque. Como observa Cross, a referência a Seir representa a adaptação israelita de uma estrutura literária típica das teofanias divinas no deserto [1].

2.3 Parã como Deserto Luminoso de Manifestação Divina

Parã aparece na literatura hebraica como um deserto marcante tanto para a narrativa patriarcal quanto para a experiência do Êxodo. Deuteronômio e Habacuque utilizam Parã como ponto de origem simbólico de uma manifestação luminosa de YHWH, integrando-o ao padrão poético da marcha teofânica.

3. O Padrão Teofânico e o Uso Poético da Geografia

Um aspecto decisivo para a adequada compreensão dessas passagens é reconhecer que todas pertencem a gêneros poéticos, hínicos ou proféticos. A Bíblia Hebraica emprega esses textos como forma de descrever teofanias — manifestações de Deus acompanhadas de fenômenos naturais como luz, tempestade, terremoto e tremor das montanhas.

3.1 Deuteronômio 33:2 Como Teofania Processional

O cântico apresenta uma progressão geográfica estilizada (“veio”, “brilhou”, “resplandeceu”) que, segundo von Rad, corresponde a uma estrutura poética destinada a expressar movimento e epifania, e não um relato topográfico literal [4].

3.2 Juízes 5:4–5 e a Marcha Guerreira de YHWH

O Cântico de Débora descreve Deus marchando desde Seir, fazendo tremer a terra e os céus. Cross interpreta essa passagem como exemplo clássico de teofania guerreira do Antigo Oriente Próximo, onde a divindade invade a cena histórica para libertar seu povo [1].

3.3 Salmo 68 e a Intervenção Cósmica

O Salmo 68 utiliza imagens de montanhas, tempestades e deslocamento divino para retratar a soberania de Deus. Brueggemann sublinha que o salmo não traça rotas geográficas, mas emprega metáforas espaciais para descrever a intervenção Ativa e Reinante de YHWH [5].

3.4 Habacuque 3:3 como Hino Teofânico Elevado

Habacuque 3:3 une Temã e Parã em paralelismo intencional, criando uma duplicação poética que reforça o caráter teofânico. John Day observa que o profeta recorre a essas imagens para projetar a salvação futura como retorno da salvação passada, reinterpretando o Êxodo para o momento histórico de crise [2].

4. A Hipótese da Origem Meridional de YHWH e seus Fundamentos

Alguns estudiosos elaboraram a hipótese de que YHWH teria sido originalmente um deus tribal associado às áreas edomitas ou aos desertos do sul. Mark S. Smith analisa paralelos mitológicos e epigráficos que, segundo ele, permitiriam considerar contribuições do sul na formação inicial do culto a YHWH [3]. Além disso, a inscrição egípcia mencionando “Shasu de YHW” é frequentemente citada como evidência de uma possível associação geográfica precoce do nome divino. Esses argumentos se baseiam principalmente na repetição das localidades meridionais nas teofanias e no fato de que diversas culturas semíticas do deserto possuíam divindades associadas a montanhas, tempestades e espaços limítrofes.

5. Crítica Metodológica à Interpretação Geográfica Literal

Embora a hipótese tenha influenciado discussões modernas, ela enfrenta problemas sérios quando submetida a critérios exegéticos e acadêmicos rigorosos.

5.1 O Equívoco Fundamental: Ler Poesia como Geografia Factual

Os textos que descrevem Deus vindo do sul são todos poéticos/proféticos. Transformar poesia em descrição literal significa ignorar o gênero literário. Como apontam von Rad e Brueggemann, esses textos funcionam como símbolos de Manifestação Divina (Teofanias), não como relatos cronológicos ou geográficos [4][5].

5.2 Parâmetros culturais do Antigo Oriente Próximo

No mundo antigo, deuses frequentemente “vinham” de regiões simbólicas: Marduque emergia do oriente, Baal surgia das nuvens, Astarte vinha do mar. A Bíblia reinterpreta esse padrão, mas nunca com intenção de afirmar que YHWH foi “originado” em um local geográfico específico.

5.3 A Eternidade Divina exclui qualquer origem espacial

A teologia israelita afirma repetidamente que Deus é eterno, anterior à criação e não vinculado a qualquer território. Salmo 90:2 é emblemático nesse sentido.

5.4 A inscrição dos “Shasu de YHW” é ambígua

John Day destaca que a inscrição pode referir-se a um topônimo, a um grupo humano ou a um culto local, e que não é possível deduzir origem ontológica da divindade a partir de seu uso [2].

6. A Geografia Meridional como Matriz Simbólica da Revelação

A análise e síntese exegética revela que a Bíblia emprega a geografia do sul como matriz simbólica que evoca a memória do Êxodo do Egito. Sinai, Seir, Parã e Temã tornam-se referências poéticas que correspondem à ação de Deus na libertação, no pacto e na condução de seu povo. O deserto, na Bíblia, é mais espaço teológico do que geográfico: é o lugar da liberdade, do pacto, da dependência, da manifestação de Deus. A marcha de YHWH/JAVÉ pelo deserto é a metáfora fundante de sua presença libertadora.

7. Conclusão: Uma Teofania, não Uma Suposta Origem

A análise exegética, literária e teológica demonstra de maneira consistente que as referências à vinda de YHWH de regiões meridionais não apontam para uma origem geográfica da Divindade, mas para um padrão teofânico profundamente enraizado na memória de Israel. As imagens de Deus marchando do sul evocam a libertação do Êxodo do Egito, a Intervenção Divina na História e a manifestação gloriosa de YHWH como Guerreiro, Juiz e Salvador.
A hipótese da origem edomita de YHWH, embora estimulante do ponto de vista histórico-comparativo, é acadêmica/metodologicamente frágil, desconsidera o gênero literário poético hebraico, ignora paralelos culturais e contraria afirmativas claras sobre a Eternidade Divina. Assim portanto, Sinai, Seir, Parã e Temã não são berços da Divindade, mas ícones poéticos da revelação. A Bíblia não apresenta o nascimento de Deus no deserto, mas sua irrupção soberana na história humana, vindo de onde Ele quiser, para libertar, julgar e restaurar. A linguagem teofânica do sul é, portanto, um instrumento literário e teológico que comunica a majestade e a ação redentora do Deus Eterno.

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Notas e Referências

[1] CROSS, Frank Moore. Canaanite Myth and Hebrew Epic: Essays in the History of the Religion of Israel. Cambridge: Harvard University Press, 1973.

[2] DAY, John. Yahweh and the Gods and Goddesses of Canaan. Sheffield: Sheffield Academic Press, 2000.

[3] SMITH, Mark S. The Early History of God: Yahweh and the Other Deities in Ancient Israel. 2. ed. Grand Rapids: Eerdmans, 2002.

[4] VON RAD, Gerhard. Old Testament Theology. 2 vols. New York: Harper & Row, 1962–1965.

[5] BRUEGGEMANN, Walter. Theology of the Old Testament: Testimony, Dispute, Advocacy. Minneapolis: Fortress Press, 1997.
BRUEGGEMANN, Walter. The Message of the Psalms. Minneapolis: Augsburg, 1984.


DIOGO J. SOARES

Doutor (Ph.D.) em Estudos Bíblicos e Exegese pelo Seminário Bíblico de São Paulo (FETSB); Mestre (M.A.) em Estudos Bíblicos pela Faculdade Teológica Integrada; (Th.B.) pelo Seminário Unido do Rio de Janeiro (STU). Possuí Especialização em Ciências Bíblicas e Interpretação pelo Seminário Teológico Filadelfia/PR (SETEFI). Bacharel (B.A.) em História Antiga, Social e Comparada pela Universidade de Uberaba (UNIUBE/MG).É historiador, biblista, teólogo e apologista cristão evangélico.

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