A Datação da Epístola aos Gálatas: Uma Análise Histórica, Exegética e Crítica da Relação entre Gálatas 2 e Atos 11 e 15



A datação da Epístola aos Gálatas permanece um dos debates mais intensos da crítica neotestamentária. Tradicionalmente, estudiosos defendem duas propostas principais: a datação precoce (por volta de 48–49 d.C., antes do Concílio de Jerusalém) e a datação tardia (após o Concílio, em meados da década de 50 d.C.). Este artigo oferece uma análise histórica e exegética que revisita a tese da datação precoce, examinando especialmente a identificação de Gálatas 2.1–10 com a viagem descrita em Atos 11.27–30. O estudo analisa ainda a ausência da menção ao decreto conciliar na carta, a presença de Barnabé, a controvérsia judaizante inicial e o papel da revelação profética de Ágabo. A convergência desses fatores mostra que a hipótese pré-conciliar apresenta forte coerência interna, cronológica e literária.

1. Introdução

A epístola aos Gálatas ocupa posição central no estudo do cristianismo primitivo, por sua discussão sobre identidade e liberdade cristã, circuncisão e autoridade apostólica. Contudo, sua interpretação histórica depende decisivamente da definição de um ponto crucial: quando a carta foi escrita? A resposta mais influente ao longo dos séculos tem sido situá-la após o Concílio de Jerusalém (At 15), sobretudo devido à aparente similaridade temática entre Gálatas 2 e Atos 15. Contudo, nas últimas décadas tem recebido renovada atenção a tese segundo a qual Gálatas antecede o Concílio, sendo redigida logo após a primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé (At 13–14), quando surgiram os primeiros conflitos com grupos judaizantes. No presente artigo reavaliaremos criticamente essas propostas, examinando evidências históricas e exegéticas muitas vezes subestimadas.

2. A Identificação de Gálatas 2.1–10: Atos 11 ou Atos 15?

A análise do capítulo 2 de Gálatas é decisiva para a datação. Paulo afirma:

  “Subi outra vez a Jerusalém... e subi por causa de uma revelação” (Gl 2.1–2)

Esta declaração não se encaixa naturalmente com o relato do Concílio de Jerusalém (At 15), que não envolve qualquer revelação profética motivadora, mas um processo de deliberação formal sobre a controvérsia da circuncisão. Por outro lado, Atos 11.27–30 descreve precisamente uma visita motivada por revelação profética. Em Antioquia, o profeta Ágabo, vindo de Jerusalém, anuncia uma grande fome que afetaria o mundo romano. Em resposta, a igreja envia Paulo e Barnabé com uma oferta aos irmãos na Judeia.

Essa viagem é:

motivada por revelação (At 11.28), realizada pelos mesmos personagens centrais de Gálatas 2 (Paulo e Barnabé), situada antes da controvérsia plenamente desenvolvida sobre circuncisão dos gentios, e condizente com o caráter privado e não-conciliar descrito por Paulo.

Assim, a precisão com que Gálatas 2 se ajusta a Atos 11 é notável. A referência paulina à revelação deixa de ser vaga e encontra paralelismo histórico direto no episódio envolvendo Ágabo.

3. A Questão do Decreta Conciliar: O Argumento do Silêncio

Um dos argumentos mais significativos a favor da data tardia de Gálatas é a aproximação temática entre Gálatas 2 e Atos 15. No entanto, esse argumento sofre uma objeção crucial: Paulo não menciona o decreto conciliar.

Considerando que:

a carta trata justamente da obrigação da circuncisão, Paulo está em intenso conflito com opositores judaizantes, e a decisão do Concílio teria fornecido um argumento oficial e definitivo, torna-se surpreendente que Paulo não utilize esse recurso. Seu silêncio é, do ponto de vista retórico, praticamente inexplicável caso o decreto já existisse. As tentativas comuns de explicar o silêncio—como a suposição de que Paulo não desejava depender de Jerusalém—carecem de força, pois o próprio apóstolo não hesita em citar personalidades de Jerusalém (Gl 2.9) quando isso convém ao argumento. Portanto, a ausência do decreto reforça de modo contundente a tese de que Gálatas foi escrita antes do Concílio.

4. A Figura de Barnabé e sua Implicação Cronológica

Barnabé aparece de forma central em Gálatas 2:

como acompanhante de Paulo (2.1),

como participante das conversas privadas com “os de reputação” (2.9),

e como envolvido no episódio da dissimulação em Antioquia (2.13).

Este retrato sugere um período de estreita colaboração entre Paulo e Barnabé.

Em Atos, tal parceria é característica da fase anterior a Atos 15. Após a disputa sobre João Marcos (At 15.36–41), Paulo e Barnabé se separam definitivamente, e os relatos posteriores não os apresentam em atividades conjuntas. Uma carta escrita depois do Concílio dificilmente apresentaria Barnabé com papel tão orgânico quanto o de Gálatas 2. Assim, a presença marcante de Barnabé no texto paulino constitui forte indicador de uma redação pré-Atos 15.

5. Galácia do Sul ou Galácia do Norte?

A determinação da identidade dos destinatários também influencia a datação. A hipótese tradicional tardia geralmente associa “Gálatas” aos habitantes da Galácia étnica (região norte-central da Ásia Menor). Contudo, não há evidência explícita em Atos de que Paulo tenha realizado missão inicial nessa região. Por outro lado, Atos 13–14 relata detalhadamente a evangelização das cidades de:

Antioquia da Pisídia,

Icônio,

Listra,

Derbe.

Todas essas cidades pertenciam, de acordo com a organização romana, à província da Galácia. Assim, é historicamente plausível que “gálatas” se refira aos cristãos da Galácia do Sul, convertidos na primeira viagem missionária. Se assim for, a carta provavelmente foi escrita pouco tempo depois dessa viagem, antes do Concílio.

6. A Cronologia de Cláudio e o Cenário Sociopolítico da Fome

A referência de Lucas à fome “no tempo de Cláudio” (At 11.28) tem confirmação abundante em autores antigos (Josefo, Suetônio e Tácito), situando os eventos entre 46 e 48 d.C..

Esse período coincide com:

a conclusão da primeira viagem missionária, a crescente tensão com grupos judaizantes, e a plausível composição de Gálatas antes do concílio de 49 d.C. Ou seja, o contexto externo oferece um cenário histórico sólido para a redação precoce.

7. Conclusão

A hipótese de que a Epístola aos Gálatas precede o Concílio de Jerusalém apresenta notável consistência quando se examinam, em conjunto, os seguintes elementos:

1. A menção a uma revelação motivadora (Gl 2.2), correspondendo exatamente ao episódio profético de Ágabo (At 11).

2. A ausência do uso do decreto conciliar, algo difícil de explicar numa carta posterior ao Concílio.

3. A presença e centralidade de Barnabé, compatível com a fase pré-conciliar da atividade paulina.

4. A identificação dos destinatários com a Galácia do Sul, região evangelizada na primeira viagem missionária.

5. A coerência cronológica com a fome no reinado de Cláudio, situada nos anos imediatamente anteriores ao concílio.

A convergência desses fatores demonstra que a datação precoce de Gálatas não é apenas uma alternativa viável, mas uma opção historicamente robusta, coerente e sustentada por forte evidência literária e externa. Essa conclusão reforça uma visão de Paulo como autor profundamente integrado às tensões iniciais do cristianismo nascente, escrevendo Gálatas como uma resposta urgente a uma crise emergente — ainda antes da institucionalização conciliar que viria em Atos 15.

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Referências

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DIOGO J. SOARES

Doutor (Ph.D.) em Estudos Bíblicos e Exegese pelo Seminário Bíblico de São Paulo (FETSB); Mestre (M.A.) em Estudos Bíblicos pela Faculdade Teológica Integrada; (Th.B.) pelo Seminário Unido do Rio de Janeiro (STU). Possuí Especialização em Ciências Bíblicas e Interpretação pelo Seminário Teológico Filadelfia/PR (SETEFI). Bacharel (B.A.) em História Antiga, Social e Comparada pela Universidade de Uberaba (UNIUBE/MG).É historiador, biblista, teólogo e apologista cristão evangélico.

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