No presente estudo analisaremos criticamente a origem e a teologia dos ebionitas à luz do Cristianismo Nascente, investigando se é historicamente legítimo considerá-los um grupo sectário e herético em função de sua rejeição à Alta Cristologia Precoce. A partir da análise das fontes neotestamentárias, patrísticas e da historiografia moderna, argumenta-se que, embora o Cristianismo Primitivo fosse plural geograficamente, já existia, desde as primeiras décadas, um núcleo cristológico elevado amplamente difundido. Conclui-se que os ebionitas representam uma forma dissidente e marginal de Cristianismo Judaico, e não a corrente principal suprimida posteriormente.
1. Introdução
A questão da diversidade no Cristianismo Primitivo tem sido central nos estudos bíblicos e históricos contemporâneos. Autores modernos frequentemente sugerem que grupos como os ebionitas preservariam uma forma mais “original” de Cristianismo, posteriormente derrotada pela chamada “grande Igreja”. Contudo, tal leitura exige avaliação crítica rigorosa. Neste breve artigo investigaremos se, à luz das evidências históricas, é sustentável afirmar que os ebionitas foram considerados hereges não por razões tardias ou políticas, mas por discordarem de elementos centrais já presentes no Cristianismo Nascente, sobretudo uma Alta Cristologia Implícita e precoce.
2. Os Ebionitas: origem e perfil teológico
Os ebionitas surgem nas fontes a partir do século II, descritos como cristãos de origem judaica que mantinham observância rigorosa da Lei mosaica e defendiam uma Cristologia baixa, na qual o Senhor Jesus era entendido como um apenas um homem justo escolhido por Deus [1]. Rejeitavam o Nascimento Virginal, a Deidade e Preexistência de Cristo e, em muitos casos, os escritos paulinos [2]. O próprio nome “ebionita”, derivado do hebraico ’evyonim (“pobres”), pode refletir tanto um ideal de pobreza quanto uma designação polêmica externa [3]. Em qualquer hipótese, trata-se de um grupo minoritário, geograficamente restrito e teologicamente isolado.
3. A Alta Cristologia Precoce no Cristianismo Nascente
Contrariamente à hipótese de uma Cristologia Elevada tardia, ampla pesquisa contemporânea demonstra que a devoção a Jesus como participante da identidade divina emerge muito cedo, dentro do próprio judaísmo do Segundo Templo. Hinos e fórmulas litúrgicas preservadas em textos paulinos, como Filipenses 2:6–11 e 1 Coríntios 8:6, revelam uma inclusão de Jesus na linguagem, no culto e nas prerrogativas divinas de YHWH (Adoração Binitária)[4]. Estudos demonstram que Jesus foi invocado em oração, adorado e reconhecido como Senhor (Kyrios) em contextos monoteístas estritos, algo sem precedentes para um mero profeta ou messias humano [5]. Essa Cristologia não nasce como especulação helenística tardia, mas como expressão devocional dentro do judaísmo do século I.
4. Os Evangelhos Sinóticos e a Devoção a Jesus
Os Evangelhos Sinóticos, especialmente Mateus e Marcos, apresentam Jesus exercendo autoridade divina: perdoa pecados, redefine a Lei, reivindica O Senhorio sobre o sábado e aceita adoração sem censura [6]. A identificação de Jesus com o “Filho do Homem” de Daniel 7 — figura celestial que recebe domínio e culto — indica uma cristologia elevada em moldes judaicos, não metafísicos gregos [7]. Essa evidência torna improvável que comunidades que negavam tais prerrogativas representassem a forma dominante ou original da fé cristã.
5. Os Ebionitas e a Ruptura com o Consenso Apostólico
A rejeição ebionita às cartas paulinas não é um detalhe secundário, mas um fator decisivo. As cartas de Paulo já circulavam amplamente e eram reconhecidas como normativas no final do século I [8]. A recusa desses textos indica uma ruptura com a comunhão intereclesial e com a autoridade apostólica reconhecida. Além disso, os ebionitas aceitavam apenas versões modificadas de Mateus, o que reforça seu caráter sectário: não apenas discordavam teologicamente, mas delimitavam um cânon próprio [9].
6. Testemunho Patrístico e Marginalidade Histórica
Fontes patrísticas independentes e geograficamente diversas — como Irineu de Lião, Orígenes e Epifânio — descrevem os ebionitas de forma consistente como um grupo dissidente, não como uma vertente principal do Cristianismo [10]. Embora tais autores escrevam a partir de uma perspectiva ortodoxa, a convergência de seus testemunhos sugere que os ebionitas já eram percebidos como marginais antes da consolidação dogmática dos concílios. A crítica moderna reconhece que nem toda acusação patrística é neutra; contudo, a ausência de evidência de uma igreja ebionita ampla, missionária ou majoritária reforça sua posição periférica [11].
7. Avaliação Crítica da Hipótese “Ebionita Original”
A tese de que os ebionitas preservariam a forma mais antiga do Cristianismo enfrenta sérias dificuldades:
Falta de evidência textual do século I sustentando uma cristologia exclusivamente ebionita;
Presença inequívoca de Alta Cristologia em fontes muito antigas;
Isolamento geográfico e teológico do grupo;
Rejeição de textos amplamente aceitos desde cedo.
Assim, o pluralismo inicial do Cristianismo a grosso modo geográfico não implica relativismo absoluto: havia diversidade, mas também marcadores identitários centrais, entre eles a adoração de Jesus [12].
8. Conclusão
À luz da análise histórica, é intelectualmente defensável — e metodologicamente responsável — afirmar que os ebionitas foram considerados um grupo sectário e herético porque rejeitaram elementos que já constituíam o núcleo do Cristianismo Nascente, especialmente a Alta Cristologia Precoce. Eles não representam o cristianismo “original” suprimido por vencedores posteriores, mas uma trajetória dissidente, que permaneceu presa a categorias messiânicas estritamente humanas enquanto o movimento cristão, desde cedo, reinterpretava o monoteísmo judaico em torno da identidade e da adoração de Jesus (Adoração Binitária). A história do Cristianismo Primitivo, portanto, não é a de uma corrupção progressiva de uma fé simples, mas a de uma rápida e profunda reconfiguração teológica, da qual os ebionitas ficaram à margem.
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Referências
[1] EHRMAN, Bart D. Lost Christianities: The Battles for Scripture and the Faiths We Never Knew. Oxford: Oxford University Press, 2003.
[2] DUNN, James D. G. Christology in the Making: A New Testament Inquiry into the Origins of the Doctrine of the Incarnation. 2. ed. Grand Rapids: Eerdmans, 1996.
[3] VERMES, Geza. The Changing Faces of Jesus. London: Penguin Books, 2000.
[4] HURTADO, Larry W. Lord Jesus Christ: Devotion to Jesus in Earliest Christianity. Grand Rapids: Eerdmans, 2003.
[5] BAUCKHAM, Richard. Jesus and the God of Israel: God Crucified and Other Studies on the New Testament’s Christology of Divine Identity. Grand Rapids: Eerdmans, 2008.
[6] WRIGHT, N. T. Jesus and the Victory of God. Minneapolis: Fortress Press, 1996.
[7] COLLINS, John J. The Apocalyptic Imagination: An Introduction to Jewish Apocalyptic Literature. 2. ed. Grand Rapids: Eerdmans, 1998.
[8] BRUCE, F. F. Paul: Apostle of the Heart Set Free. Grand Rapids: Eerdmans, 1977.
[9] METZGER, Bruce M. The Canon of the New Testament: Its Origin, Development, and Significance. Oxford: Clarendon Press, 1987.
[10] IRINEU DE LIÃO. Contra as Heresias. Tradução e edição crítica. São Paulo: Paulus, 1995.
[11] BAUER, Walter. Orthodoxy and Heresy in Earliest Christianity. Philadelphia: Fortress Press, 1971.
[12] HENGEL, Martin. The Son of God: The Origin of Christology and the History of Jewish-Hellenistic Religion. Philadelphia: Fortress Press, 1976.
