O Movimento de Jesus como Enigma Histórico: Messianismo, Execução e Continuidade no Século I

 




O século I da era comum foi marcado por intensa efervescência religiosa e política na Judeia romana. Diversos movimentos proféticos, apocalípticos e messiânicos emergiram nesse contexto, geralmente centrados em líderes carismáticos que prometiam intervenção divina iminente contra a dominação estrangeira. A historiografia do período, baseada sobretudo nas obras do Historiador judeu Flávio Josefo e em fontes romanas, identifica um padrão recorrente: a captura e execução do líder resultava no colapso quase imediato do movimento¹. Nesse cenário, o movimento iniciado em torno de Jesus de Nazaré constitui uma anomalia histórica significativa. Executado por crucificação — punição romana reservada a rebeldes e criminosos políticos — Jesus deveria, segundo todas as expectativas sociológicas e teológicas do período, ter sido rapidamente esquecido. O que ocorre, porém, é o oposto: o movimento não apenas sobrevive, como se reorganiza, redefine o conceito de messianismo e se expande de forma notável. Neste breve artigo examinaremos por que o movimento de Jesus pode ser legitimamente descrito como um enigma histórico, analisando padrões messiânicos do século I, a ruptura representada pelo Cristianismo Primitivo e as explicações propostas pela historiografia acadêmica contemporânea concernente ao período.

1. Movimentos Messiânicos no Judaísmo do Século I

A expectativa messiânica no judaísmo do Segundo Templo não era uniforme, mas apresentava elementos comuns. O messias era geralmente concebido como um agente de Deus destinado a restaurar Israel, derrotar inimigos estrangeiros e inaugurar uma era de justiça². Essa figura era, em regra, vitoriosa, não derrotada. Flávio Josefo, historiador descreve vários líderes com pretensões proféticas ou messiânicas — Judas, o Galileu; Teudas; o chamado “Egípcio” — cujos movimentos terminaram abruptamente após a morte do líder³. O historiador Lucas, em Atos 5, ecoa essa observação ao afirmar que tais movimentos “se desfizeram” quando seus líderes foram mortos. A razão do colapso é dupla. Primeiro, a morte violenta do líder invalidava sua legitimidade teológica. Segundo, os romanos aplicavam repressão sistemática, dispersando seguidores e impedindo qualquer sucessão organizada⁴. Assim, a morte do líder funcionava como prova empírica de que ele não fora escolhido por Deus.

2. A Crucificação de Jesus e o Escândalo Messiânico

A crucificação de Jesus representa, do ponto de vista judaico, um obstáculo quase insuperável. Deuteronômio 21,23 associa a execução “pendurado no madeiro” à maldição divina. Para um judeu do século I, um messias crucificado não era apenas um fracasso político, mas um contrassenso teológico⁵. Martin Hengel demonstrou que a crucificação era vista no mundo antigo como a forma mais vergonhosa de morte possível, destinada a apagar a memória do condenado⁶. Logo, qualquer movimento que continuasse a venerar um líder crucificado estaria agindo contra expectativas culturais profundamente arraigadas.

3. A Continuidade do Movimento de Jesus

Apesar disso, o movimento de Jesus não colapsa. Pelo contrário, seus seguidores passam a proclamar que a execução não foi um erro, mas parte do plano divino. Mais ainda, afirmam que Deus reverteu o veredicto humano por meio da Ressurreição. O dado historiograficamente relevante não é a aceitação teológica dessa crença, mas o fato de que ela surgiu muito cedo. Estudos sobre as tradições pré-paulinas, como 1 Coríntios 15, indicam que a proclamação da Ressurreição remonta a poucos anos após a morte de Jesus⁷. Isso reduz drasticamente a plausibilidade de uma elaboração mítica tardia. E. P. Sanders observa que os discípulos não esperavam a morte de Jesus nem uma ressurreição individual antes do fim dos tempos, o que torna improvável que tenham “inventado” tal crença para salvar o movimento⁸.

4. O Enigma Historiográfico

É nesse ponto que emerge o enigma histórico. Como observa Paula Fredriksen, algo ocorreu após a crucificação que convenceu os seguidores de Jesus de que ele continuava vivo e exaltado por Deus⁹. A historiografia, como disciplina, não pode afirmar o que esse “algo” foi em termos metafísicos, mas deve reconhecer seus efeitos históricos concretos. Tentativas de explicação puramente sociológicas — como coesão grupal sob perseguição — falham em explicar o impulso inicial do movimento¹⁰. Hipóteses psicológicas, como experiências visionárias individuais, não explicam adequadamente a pluralidade e persistência dos testemunhos¹¹. Já a hipótese de construção literária tardia enfrenta o problema da proximidade temporal e do ambiente hostil em que a proclamação surgiu¹². N. T. Wright sintetiza o problema ao afirmar que nenhuma categoria messiânica judaica conhecida comportava um messias crucificado e exaltado, exigindo uma reformulação conceitual radical¹³.

5. Redefinição do Messianismo e Origem do Cristianismo

A originalidade do movimento de Jesus está precisamente nessa redefinição. O messias não é apenas o libertador político, mas o sofredor vindicado por Deus. Essa reinterpretação das Escrituras judaicas — Isaías 53, Salmo 22, Daniel 7 — ocorre à luz da experiência pascal proclamada pelos discípulos¹⁴. Do ponto de vista histórico, a origem do cristianismo não pode ser explicada apenas como continuação natural do judaísmo, nem como simples seita helenística. Ela nasce da tensão entre um evento traumático (a crucificação) e uma convicção transformadora (a ressurreição), cuja combinação gera uma nova matriz religiosa.

Considerações finais

A análise comparativa dos movimentos messiânicos do século I demonstra que o movimento de Jesus constitui uma exceção histórica robusta. Enquanto a regra empírica aponta para o colapso após a execução do líder, o Cristianismo Primitivo se estrutura precisamente em torno desse evento. A historiografia do período converge no reconhecimento de que essa continuidade precoce, teologicamente escandalosa e socialmente custosa, exige explicação. O enigma do movimento de Jesus reside, portanto, não apenas em sua sobrevivência, mas na forma como transforma derrota em fundamento, fracasso em proclamação e morte em origem. Historicamente, o Cristianismo nasce não apesar da cruz, mas a partir dela — um fenômeno sem paralelo direto no messianismo judaico do século I.

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Referências

[1] JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas. Tradução de William Whiston. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

[2] COLLINS, John J. The Scepter and the Star: Messianism in Light of the Dead Sea Scrolls. 2. ed. Grand Rapids: Eerdmans, 2010.

[3] JOSEFO, Flávio. Guerras Judaicas. Tradução de William Whiston. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

[4] HORSLEY, Richard A. Bandits, Prophets, and Messiahs: Popular Movements in the Time of Jesus. San Francisco: Harper & Row, 1985.

[5] SANDERS, E. P. Jesus and Judaism. Philadelphia: Fortress Press, 1985.

[6] HENGEL, Martin. Crucifixion: In the Ancient World and the Folly of the Message of the Cross. Philadelphia: Fortress Press, 1977.

[7] DUNN, James D. G. Jesus Remembered. Grand Rapids: Eerdmans, 2003.

[8] SANDERS, E. P. The Historical Figure of Jesus. London: Penguin Books, 1993.

[9] FREDRIKSEN, Paula. From Jesus to Christ: The Origins of the New Testament Images of Jesus. 2. ed. New Haven: Yale University Press, 2000.

[10] THEISSEN, Gerd. The Sociology of Early Palestinian Christianity. Philadelphia: Fortress Press, 1978.

[11] EHRMAN, Bart D. How Jesus Became God: The Exaltation of a Jewish Preacher from Galilee. New York: HarperOne, 2014.

[12] HURTADO, Larry W. Lord Jesus Christ: Devotion to Jesus in Earliest Christianity. Grand Rapids: Eerdmans, 2003.

[13] WRIGHT, N. T. The Resurrection of the Son of God. Minneapolis: Fortress Press, 2003.

[14] VERMES, Geza. The Changing Faces of Jesus. London: Penguin Books, 2000.

DIOGO J. SOARES

Doutor (Ph.D.) em Estudos Bíblicos e Exegese pelo Seminário Bíblico de São Paulo (FETSB); Mestre (M.A.) em Estudos Bíblicos pela Faculdade Teológica Integrada; (Th.B.) pelo Seminário Unido do Rio de Janeiro (STU). Possuí Especialização em Ciências Bíblicas e Interpretação pelo Seminário Teológico Filadelfia/PR (SETEFI). Bacharel (B.A.) em História Antiga, Social e Comparada pela Universidade de Uberaba (UNIUBE/MG).É historiador, biblista, teólogo e apologista cristão evangélico.

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