Cafarnaum: A Base de Operações do Ministério de Jesus

 


Cafarnaum (hebr. Kfar Naḥum), localizada na margem noroeste do Mar da Galileia, ocupa lugar central nos Evangelhos como o principal cenário do ministério público de Jesus. Mais do que um simples pano de fundo narrativo, Cafarnaum constitui um contexto histórico, social e econômico determinante para a compreensão da atuação de Jesus. A partir de análises e estudos arqueológicos e históricos buscaremos reconstruir, de forma crítica e integrada, o perfil de Cafarnaum no século I d.C., avaliando seu tamanho, estrutura urbana, economia, vida religiosa e relevância histórica como base do ministério de Jesus.

1. Cafarnaum no contexto da Galileia do século I

A Galileia do século I era predominantemente rural, marcada por aldeias judaicas de pequeno e médio porte, em contraste com centros helenísticos como Séforis e Tiberíades. Jonathan L. Reed enfatiza que Cafarnaum deve ser compreendida dentro desse modelo aldeão galileu, e não como uma “cidade” no sentido greco-romano¹. Não há evidências de planejamento urbano monumental: inexistem teatro, fórum, ruas colunadas, aquedutos ou edifícios administrativos romanos. Eric M. Meyers, em parceria com James F. Strange, concorda com essa caracterização geral, mas chama atenção para debates metodológicos sobre a extensão territorial efetivamente ocupada por Cafarnaum no século I². Enquanto estimativas mais antigas sugeriam áreas maiores, a maioria dos dados arqueológicos confirmados aponta para uma ocupação relativamente compacta. Titus Kennedy, adotando uma postura sintética e cautelosa, estima que Cafarnaum ocupava cerca de 5 a 6 hectares, com uma população provável entre 1.000 e 2.000 habitantes, admitindo a possibilidade de números ligeiramente maiores caso áreas ainda não escavadas fossem incluídas³. Apesar das divergências quantitativas, há consenso entre os três autores de que Cafarnaum era uma vila judaica não helenizada, típica da Galileia rural.

2. Arquitetura doméstica e organização social

As escavações arqueológicas revelam um padrão habitacional bastante uniforme. As casas eram construídas com basalto negro local, material abundante na região, com paredes espessas, pisos de terra batida e telhados leves sustentados por vigas de madeira e cobertura vegetal⁴. O elemento central dessas residências era o pátio, em torno do qual se organizavam pequenos cômodos. Reed interpreta esse padrão como evidência de uma estrutura social baseada na família extensa, na cooperação cotidiana e na vida comunitária¹. Não se trata de habitações isoladas, mas de conjuntos residenciais densamente agrupados, refletindo um modo de vida coletivo. A chamada “Casa de Pedro” — identificada arqueologicamente como uma casa do século I posteriormente adaptada para uso comunitário — insere-se plenamente nesse padrão arquitetônico. Kennedy descreve a sequência histórica do local (casa → espaço de reunião cristã → construção posterior) como um exemplo claro de como uma residência comum da vila foi ressignificada ao longo do tempo³. Do ponto de vista histórico, ainda que a identificação direta com o apóstolo Pedro não possa ser provada, o local é fundamental para compreender o tecido urbano e social de Cafarnaum.

3. Economia: pesca, agricultura e circulação regional

A economia de Cafarnaum estava profundamente ligada ao Mar da Galileia. Evidências arqueológicas como pesos de rede, anzóis e estruturas associadas ao processamento de peixe indicam que a pesca era uma atividade central⁵. Reed destaca que esse tipo de economia não deve ser romantizado nem como extrema pobreza nem como prosperidade urbana, mas entendido como subsistência estável, capaz de sustentar famílias ao longo das gerações¹. Kennedy amplia esse quadro ao observar que Cafarnaum também se beneficiava de sua posição próxima a rotas regionais de circulação, permitindo trocas comerciais locais e integração econômica com outras aldeias galileias³. Além da pesca, pequenas atividades agrícolas e artesanais completavam o sustento da população. Meyers observa que esse perfil econômico reforça o caráter não elitizado da vila: Cafarnaum não era um centro de acúmulo de riqueza, mas um espaço socialmente homogêneo, onde as diferenças econômicas existiam, mas eram limitadas².

4. Vida religiosa e a questão da sinagoga

A vida religiosa de Cafarnaum era marcadamente judaica, estruturada em torno da observância da Torá, das práticas de pureza e da reunião comunitária. O principal ponto de debate acadêmico reside na datação da sinagoga associada ao período de Jesus. É consenso que a sinagoga monumental visível hoje, construída em calcário branco, data de um período posterior (provavelmente séculos IV–V). No entanto, sob essa estrutura existem restos em basalto que alguns pesquisadores interpretam como pertencentes a uma sinagoga do século I. Kennedy adota uma posição afirmativa, argumentando que a cerâmica sob o piso e a continuidade do local indicam a existência de uma sinagoga funcional no tempo de Jesus³. Reed tende a ser mais cauteloso, preferindo afirmar que Cafarnaum possuía algum tipo de espaço comunitário para leitura e ensino da Lei, ainda que a forma arquitetônica exata seja debatida¹. Estudos mais recentes sobre sinagogas antigas alertam para o risco de projeção retroativa de modelos posteriores sobre o século I⁶. Portanto historicamente, o ponto seguro é que Cafarnaum possuía uma vida religiosa comunitária estruturada, o que explica o cenário descrito nos Evangelhos: ensino público, debates, curas e confrontos interpretativos.

5. Cafarnaum como base do ministério de Jesus

À luz desse contexto, a escolha de Cafarnaum como base do ministério de Jesus adquire pleno sentido histórico. A vila reunia características estratégicas: população suficientemente numerosa, economia ativa, forte identidade judaica e conexões regionais. Reed argumenta que Cafarnaum oferecia o ambiente ideal para um mestre itinerante que atuava fora das instituições centrais de Jerusalém¹. Kennedy acrescenta que a ausência de forte presença romana direta tornava o espaço socialmente mais permeável à crítica religiosa e à expectativa escatológica³. Cafarnaum, portanto, não foi um cenário acidental, mas um ambiente historicamente coerente com a mensagem e a prática de Jesus.

Conclusão histórica

 A análise integrada histórica e arqueológica permite concluir que Cafarnaum, no século I d.C., era uma vila judaica galileia de porte médio, caracterizada por arquitetura doméstica simples, economia baseada na pesca e na subsistência, vida comunitária intensa e forte identidade religiosa. Longe de ser uma cidade helenística ou um centro de poder, Cafarnaum representava o coração da Galileia popular. Historicamente, isso explica sua centralidade no ministério de Jesus: Cafarnaum oferecia acesso direto ao povo, distância relativa das elites sacerdotais e romanas, e um ambiente social no qual ensino, cura e conflito interpretativo eram possíveis. Assim, Cafarnaum não foi apenas o palco do ministério de Jesus, mas parte constitutiva de sua forma histórica de atuação.

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Referências

[1] REED, Jonathan L. Archaeology and the Galilean Jesus: A Re-examination Of The Evidence. Harrisburg: Trinity Press International, 2000. 

[1] REED, Jonathan L. Harper Collins Guide To The New Testament. New York, HarperCollins Publishers LLC, 2007.

[2] MEYERS, Eric M.; STRANGE, James F. Archaeology, The Rabbis and Early Christianity. Nashville: Abingdon Press, 1981.

[3] KENNEDY, Titus. Unearthing the Bible: 101 An Archaeological Discoveries That Bring the Bible to Life. Eugene: Harvest House Publishers, 2020.

[4] CORBO, Virgilio. Cafarnao I: Gli Edella Città. Jerusalem: Studium Biblicum Franciscanum, 1975.

[5] NUN, Mendel. The Sea of Galilee and Its Fishermen In The New Testament. Ein Gev: Kibbutz Ein Gev, 1989.

[6] RUNESSON, Anders. The Origins Of The Synagogue: A Socio-Historical Study. Stockholm: Almqvist & Wiksell, 2001.

DIOGO J. SOARES

Doutor (Ph.D.) em Estudos Bíblicos e Exegese pelo Seminário Bíblico de São Paulo (FETSB); Mestre (M.A.) em Estudos Bíblicos pela Faculdade Teológica Integrada; (Th.B.) pelo Seminário Unido do Rio de Janeiro (STU). Possuí Especialização em Ciências Bíblicas e Interpretação pelo Seminário Teológico Filadelfia/PR (SETEFI). Bacharel (B.A.) em História Antiga, Social e Comparada pela Universidade de Uberaba (UNIUBE/MG).É historiador, biblista, teólogo e apologista cristão evangélico.

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