A questão do status dos chamados livros apócrifos denominados pela Igreja romana como deuterocanônicos permanece como um dos temas mais debatidos nos estudos bíblicos e históricos. Este debate envolve não apenas considerações teológicas, mas sobretudo evidências históricas relacionadas ao desenvolvimento do cânon judaico e cristão. Neste breve artigo defenderemos que tais escritos pertencem primariamente ao judaísmo da diáspora helenística, não sendo reconhecidos como Escritura inspirada no judaísmo palestinense anterior a Cristo, nem confirmados como autoridade canônica pelas fontes mais antigas do Cristianismo Primitivo.
O Judaísmo do Segundo Templo e a Delimitação do Cânon
Durante o período do Segundo Templo (aprox. 500 a.C. – 70 d.C.), o judaísmo não era monolítico, mas apresentava diversidade textual e teológica. Ainda assim, evidências apontam para a existência de um núcleo de escritos considerados sagrados e normativos, correspondente ao que mais tarde se consolidaria como o cânon hebraico. O testemunho de Flávio Josefo é particularmente significativo. Em Contra Apião, ele afirma que os judeus possuem um conjunto fixo de vinte e dois livros, aos quais nada foi acrescentado após o período profético¹. Essa declaração indica não apenas um cânon delimitado, mas também uma consciência histórica de fechamento canônico. Importante notar que os apócrifos não estão incluídos nessa lista. Além disso, a divisão tripartite mencionada em fontes judaicas — Lei, Profetas e Escritos — reflete uma tradição consolidada, posteriormente reafirmada em textos do século I. Tal estrutura sugere um reconhecimento funcional e litúrgico desses escritos, distinto de outros textos contemporâneos.
Os Escritos da Diáspora e o Contexto Helenístico
Os chamados apócrifos judaicos emergem majoritariamente no contexto do judaísmo helenístico, especialmente em centros como Alexandria. Escritos como Sabedoria de Salomão e 2 Macabeus apresentam características literárias, filosóficas e teológicas fortemente influenciadas pelo pensamento grego, incluindo conceitos como a imortalidade da alma em moldes platônicos e uma teodiceia elaborada². Essa influência helenística levou diversos estudiosos a argumentar que tais textos refletem uma adaptação do judaísmo às categorias culturais do mundo grego, em contraste com a tradição hebraica mais conservadora da Palestina³. Assim, ainda que esses escritos fossem valorizados em certos círculos da diáspora, não alcançaram reconhecimento universal como Escritura inspirada no judaísmo normativo.
O Testemunho do Novo Testamento
O Novo Testamento constitui a evidência cristã mais antiga disponível. Nele, observa-se um uso extensivo do Antigo Testamento, especialmente por figuras centrais como Jesus e Paulo. Contudo, esse uso revela padrões significativos. Em primeiro lugar, não há citações explícitas dos deuterocanônicos como Escritura. Ao contrário, as referências do Senhor Jesus, como em Lucas 24:44, refletem a estrutura tradicional da Bíblia hebraica, mencionando Lei, Profetas e Escritos. Essa formulação sugere alinhamento com o cânon judaico estabelecido. Em segundo lugar, Paulo, considerado a fonte cristã mais antiga, cita repetidamente textos do Antigo Testamento, sempre dentro do corpus hebraico tradicional. Sua ausência de referência aos apócrifos, mesmo ao tratar de temas éticos e teológicos amplos, é significativa e tem sido interpretada como indicativo de sua não canonicidade no ambiente apostólico⁴.
A Septuaginta e seu Uso no Cristianismo Primitivo
É amplamente reconhecido que os primeiros cristãos utilizaram a Septuaginta, a tradução grega das Escrituras. No entanto, essa constatação exige qualificação. A Septuaginta não era um corpus uniforme e fixo no século I, mas uma coleção textual fluida, com variações regionais⁵. Assim, o uso da Septuaginta pelos cristãos não implica automaticamente a aceitação de todos os textos nela contidos como inspirados. Antes, indica uma preferência linguística e cultural, especialmente no contexto missionário gentílico. A distinção entre uso e canonicidade é crucial para evitar conclusões anacrônicas.
O Testemunho Patrístico e a Divergência Cristã
Nos séculos posteriores, observa-se diversidade de opiniões entre os líderes cristãos. Embora alguns autores utilizem os textos apócrifos, outros expressam reservas claras quanto ao seu status. Jerônimo, tradutor da Vulgata no século IV, é uma figura central nesse debate. Ele distingue entre livros canônicos e eclesiásticos, afirmando que os apócrifos não deveriam ser usados para estabelecer doutrina⁶. Sua preferência pelo texto hebraico reflete continuidade com a tradição judaica anterior. Essa posição demonstra que, mesmo no cristianismo tardio, não havia consenso absoluto quanto à inspiração desses escritos, reforçando a ideia de que sua aceitação foi progressiva e contestada.
Discussão Acadêmica Contemporânea
Estudiosos modernos têm abordado o tema a partir de diferentes perspectivas. Bruce argumenta que o cânon hebraico já estava substancialmente definido no período do Novo Testamento⁷. Já McDonald reconhece a diversidade textual, mas admite que certos livros gozavam de autoridade superior⁸. Por outro lado, Tov destaca a pluralidade textual do período, sem necessariamente atribuir canonicidade uniforme a todos os escritos preservados⁹. Essa abordagem reforça a distinção entre circulação textual e reconhecimento canônico. Portanto a análise histórica das evidências disponíveis conduz a uma conclusão consistente: os livros apócrifos pertencem ao contexto do judaísmo helenístico da diáspora e não foram reconhecidos como Escritura inspirada no judaísmo palestinense anterior a Cristo. O testemunho de Josefo, a estrutura canônica refletida no Novo Testamento e o silêncio de Paulo apontam para a ausência de autoridade canônica desses escritos no período mais antigo do Cristianismo. Embora a Septuaginta tenha sido amplamente utilizada, seu uso não implica aceitação integral de todos os seus conteúdos como inspirados. A recepção posterior desses livros no Cristianismo foi gradual, diversa e frequentemente contestada, como evidenciado pela posição de Jerônimo. Dessa forma, à luz das evidências históricas, conclui-se que os apocrifos judaicos não possuíam reconhecimento universal nem no Judaísmo pré-cristão nem no Cristianismo Primitivo, sendo melhor compreendidos como literatura histórica relevante, porém não canônica.
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Referências
[1] JOSEPHUS, Flavio. Against Apion. Tradução de H. St. J. Thackeray. Cambridge: Harvard University Press, 1926.
[2] COLLINS, John J. Between Athens and Jerusalem: Jewish Identity in the Hellenistic Diaspora. 2. ed. Grand Rapids: Eerdmans, 2000.
[3] HENGEL, Martin. Judaism and Hellenism: Studies in Their Encounter in Palestine during the Early Hellenistic Period. 2. ed. Philadelphia: Fortress Press, 1974.
[4] BRUCE, F. F. The Canon of Scripture. Downers Grove: InterVarsity Press, 1988.
[5] TOV, Emanuel. Textual Criticism of the Hebrew Bible. 3. ed. Minneapolis: Fortress Press, 2012.
[6] JERÔNIMO. Prologus Galeatus. In: SCHAFF, Philip (ed.). Nicene and Post-Nicene Fathers. Series II, Vol. 6. Peabody: Hendrickson, 1994.
[7] BRUCE, F. F. The Canon of Scripture. Downers Grove: InterVarsity Press, 1988.
[8] MCDONALD, Lee Martin. The Biblical Canon: Its Origin, Transmission, and Authority. 3. ed. Peabody: Hendrickson, 2007.
[9] TOV, Emanuel. Scribal Practices and Approaches Reflected in the Texts Found in the Judean Desert. Leiden: Brill, 2004.
