
A inscrição egípcia encontrada no templo de Soleb, na Núbia, construída durante o reinado de Amenófis III, contém a expressão convencionalmente transliterada como tꜣ šꜣsw yhwꜣ, “terra dos Shasu de Yhwꜣ”. O documento, datado do século XIV a.C., constitui provavelmente o mais antigo registro extrabíblico conhecido de um nome correspondente a YHWH, Javé, o Deus nacional de Israel. Neste breve artigo defenderemos, de maneira histórica e analítica que os Shasu de Yhwꜣ podem ser compreendidos como uma população protoisraelita ou como um segmento ancestral dos israelitas, ainda caracterizado pela mobilidade pastoril e pela permanência em regiões desérticas ao sul de Canaã. Embora a inscrição não empregue diretamente o etnônimo “Israel”, sua antiguidade, sua associação explícita entre uma população nômade e o nome Yhwꜣ, sua provável localização no sul da Transjordânia e sua correspondência com as antigas tradições bíblicas sobre Javé vindo de Seir, Parã, Edom e Temã constituem um conjunto convergente de evidências. Argumenta-se, portanto, que Soleb pode preservar uma referência egípcia a grupos israelitas em estágio formativo, anteriores à sedentarização nas terras altas de Canaã e à primeira ocorrência inequívoca do nome “Israel” na Estela de Merneptá.
1. Uma Análise Preliminar
A reconstrução histórica das origens de Israel exige que as tradições bíblicas sejam confrontadas com documentos produzidos pelas civilizações contemporâneas do antigo Oriente Próximo. Nesse campo, as fontes egípcias possuem valor especial, pois o Egito exerceu domínio político e militar sobre Canaã durante grande parte do segundo milênio a.C. e registrou povos, territórios e populações móveis que circulavam entre o vale do Nilo, o Sinai, a Transjordânia e o sul do Levante.
Entre esses registros, destaca-se uma inscrição preservada no templo de Soleb, construído na Núbia durante o reinado de Amenófis III, faraó da XVIII Dinastia. O texto faz parte de uma série de designações topográficas e étnicas associadas a inimigos estrangeiros simbolicamente submetidos ao poder do faraó. Em um dos chamados “anéis de nomes” aparece a expressão:
tꜣ šꜣsw yhwꜣ
A tradução mais recorrente é “terra dos Shasu de Yhwꜣ” ou “terra dos nômades de Yhwꜣ”. A inscrição demonstra que, no século XIV a.C., os egípcios conheciam uma população pertencente ao universo Shasu e associada a um nome extraordinariamente próximo do tetragrama hebraico YHWH.
Daniel E. Fleming considera a ocorrência de Yhwꜣ na lista geográfica de Amenófis III o ponto de partida indispensável para qualquer investigação sobre a origem histórica de Javé.¹ Para o autor, o documento registra o nome antes do aparecimento inequívoco de Israel nas fontes egípcias, colocando Javé no ambiente das populações Shasu, caracterizadas pela habitação em tendas e pela mobilidade territorial. A própria apresentação editorial de sua obra sintetiza o problema: muito antes de Israel aparecer claramente nas inscrições, o nome de Javé já se encontra em uma lista egípcia associado a um grupo da terra dos Shasu.²
A questão central deste estudo é determinar se os Shasu de Yhwꜣ podem ser interpretados não apenas como adoradores pré-israelitas de Javé, mas como grupos protoisraelitas em movimento pelas regiões desérticas durante o reinado de Amenófis III.
A tese defendida é afirmativa, desde que o termo “israelita” seja entendido historicamente, e não de maneira anacrônica. Os Shasu de Yhwꜣ não precisavam possuir ainda uma identidade nacional centralizada, uma monarquia ou uma ocupação territorial consolidada em Canaã para fazerem parte da história de Israel. Eles podem representar uma fase anterior da comunidade israelita: grupos tribais e pastoris unidos ou identificados pelo nome de seu Deus, ainda em peregrinação ou em processos de migração, antes da formação plena de Israel como povo territorialmente estabelecido.
2. O templo de Soleb e sua datação no reinado de Amenófis III
O templo de Soleb está localizado na antiga Núbia, no atual Sudão, entre a segunda e a terceira cataratas do Nilo. Sua construção ocorreu durante o reinado de Amenófis III, um dos soberanos mais importantes da XVIII Dinastia. A cronologia absoluta de seu governo varia ligeiramente conforme o sistema adotado, sendo comumente situada aproximadamente entre 1390 e 1353 a.C., embora outras cronologias proponham pequenas diferenças.
A atribuição do templo ao reinado de Amenófis III não é uma conjectura baseada apenas em estilo artístico. O complexo apresenta inscrições, representações e cenas ligadas ao próprio faraó, incluindo elementos associados ao seu jubileu real. A UNESCO identifica o templo como uma construção realizada durante seu reinado e originalmente dedicada a Amon, tendo sofrido alterações religiosas no período de Aquenáton.
As listas topográficas de Soleb pertencem, portanto, ao horizonte político e administrativo da XVIII Dinastia. Elas refletem o conhecimento egípcio de povos e regiões estrangeiras alcançadas por expedições militares, relações diplomáticas, rotas comerciais ou sistemas de controle territorial.
Fleming observa que, mesmo que parte das informações geográficas empregadas em Soleb pudesse derivar de contatos anteriores, a composição pertence à visão geopolítica de Amenófis III, e o encontro egípcio com os grupos específicos nela mencionados deve ter ocorrido durante seu reinado ou antes dele.³ Assim, o documento assegura que o nome Yhwꜣ já era conhecido pela administração egípcia até o século XIV a.C.
Esse dado cronológico é fundamental para o argumento histórico. A inscrição não pertence ao período dos reis israelitas, ao exílio babilônico ou à época tardia em que a religião de Israel já estava institucionalmente consolidada. Ela antecede em cerca de um século a Estela de Merneptá, que registra pela primeira vez, de maneira inequívoca, uma população chamada “Israel” em Canaã.
Consequentemente, Soleb pode documentar um estágio anterior da história israelita: não Israel plenamente estabelecido nas montanhas de Canaã, mas grupos ainda reconhecidos pelo Egito segundo sua forma de vida móvel e segundo a região ou divindade à qual estavam associados.
3. O significado histórico do termo Shasu
O termo egípcio šꜣsw, convencionalmente vocalizado como Shasu, era empregado para designar populações pastoris móveis ou seminômades que circulavam pelas regiões áridas situadas a leste do Egito. Essas populações aparecem em diferentes textos do Novo Império relacionadas ao Sinai, à Transjordânia, ao Neguev, a Edom, a Seir e a outras áreas do sul levantino.
Os Shasu não constituíam necessariamente uma única etnia homogênea. O termo funcionava como uma classificação egípcia ampla, determinada em grande parte pelo modo de vida, pela mobilidade e pela localização periférica desses grupos. Eles podiam formar clãs, confederações ou comunidades tribais com identidades próprias.
Manfred Weippert demonstrou que os nômades semíticos do segundo milênio a.C. devem ser estudados como componentes reais da estrutura populacional do antigo Oriente Próximo, e não como elementos marginais sem participação nos processos de formação étnica.⁴ A mobilidade pastoril não impedia a existência de identidades religiosas, genealogias coletivas, chefias tribais ou vínculos territoriais.
Nesse sentido, a classificação “Shasu” não exclui uma possível identidade protoisraelita. Pelo contrário, ela descreve exatamente o tipo de organização social que as tradições mais antigas de Israel atribuem aos seus antepassados: pastores, clãs familiares, deslocamentos periódicos, residência em tendas e peregrinação por regiões de deserto.
A narrativa bíblica apresenta Abraão, Isaac e Jacó como chefes de grupos pastoris móveis. Posteriormente, Israel é descrito como uma comunidade que atravessa o deserto, organiza-se tribalmente e somente depois se estabelece em Canaã. Ainda que essas narrativas tenham recebido sua forma literária final em épocas posteriores, elas podem conservar memórias sociais de populações cuja existência histórica se relacionava à mobilidade pastoril.
Assim, quando uma inscrição egípcia do século XIV a.C. menciona uma população Shasu associada ao nome Yhwꜣ, a correspondência com as antigas tradições israelitas não pode ser descartada como mera coincidência. O documento apresenta simultaneamente três elementos centrais da memória de Israel: uma população semítica, um contexto de mobilidade no deserto e um nome correspondente a Javé.
4. Yhwꜣ como a mais antiga ocorrência egípcia do nome Javé
O elemento Yhwꜣ constitui o aspecto mais significativo da inscrição. Sua forma consonantal aproxima-se do nome divino hebraico יהוה, transliterado como YHWH. Como o sistema hieroglífico egípcio não reproduzia nomes estrangeiros da mesma maneira que uma escrita alfabética semítica, não se deve exigir identidade ortográfica absoluta entre as formas.
A correspondência fonética, contudo, é suficientemente forte para que numerosos estudiosos reconheçam em Yhwꜣ uma referência ao nome Javé. Donald B. Redford considera a identificação historicamente relevante e relaciona a evidência aos grupos Shasu do sul da Transjordânia.⁵ Fleming, por sua vez, organiza sua investigação sobre “Javé antes de Israel” precisamente a partir da inscrição de Soleb, reconhecendo que o nome aparece no interior de uma subdivisão da terra dos Shasu.⁶
A inscrição pode ter empregado Yhwꜣ como nome territorial, designação tribal ou referência a uma divindade. Essas possibilidades não são necessariamente excludentes. No antigo Oriente Próximo, lugares, povos e divindades frequentemente se encontravam relacionados por meio de nomes compartilhados. Uma terra podia ser denominada segundo sua divindade; uma população podia ser identificada pelo deus que cultuava; e um nome divino podia adquirir também valor geográfico.
Mesmo que Yhwꜣ funcionasse gramaticalmente como topônimo, isso não impediria sua relação com o nome divino YHWH. Fleming chama a atenção justamente para a necessidade de investigar a história do nome sem impor categorias posteriores ao documento.⁷ A expressão poderia indicar a “terra de Yhwꜣ”, habitada por determinados Shasu, ao mesmo tempo que preservava o nome do deus associado àquele território ou população.
A força da identificação cresce quando a inscrição de Soleb é comparada a uma lista posterior de Amara Oeste, do período raméssida, na qual reaparece uma forma correspondente. A repetição demonstra que não se trata de um sinal isolado, de uma leitura puramente imaginativa ou de um erro ocasional do escriba. O nome fazia parte da tradição geográfica egípcia relativa aos grupos Shasu.
Portanto, a inscrição de Soleb deve ser considerada a mais antiga ocorrência egípcia conhecida de um nome identificável com YHWH. Ela antecede significativamente as inscrições israelitas da Idade do Ferro e mostra que o nome de Javé já estava associado a uma população semítica do deserto durante o reinado de Amenófis III.
5. Dos “Shasu de Javé” aos protoisraelitas
A principal objeção à identificação dos Shasu de Yhwꜣ com os israelitas consiste no fato de que a inscrição não emprega o nome “Israel”. Essa objeção é relevante, mas não é conclusiva.
A ausência do etnônimo “Israel” pode ser explicada cronologicamente. Caso os acontecimentos refletidos nas tradições do Êxodo e da peregrinação pertençam a um período anterior à consolidação de Israel em Canaã, não seria necessário esperar que os egípcios empregassem uma designação nacional ainda em formação.
Os nomes coletivos mudam conforme as populações se transformam. Um grupo pode ser conhecido externamente por sua forma de vida, sua região de origem, sua divindade, seu chefe tribal ou sua atividade econômica. Somente em uma fase posterior pode surgir ou consolidar-se um etnônimo comum.
A inscrição de Soleb pode, portanto, preservar a identidade egípcia atribuída a uma comunidade que posteriormente seria incorporada a Israel ou que se tornaria um dos seus núcleos formadores. Para os escribas egípcios, eram “Shasu”, isto é, populações móveis. Entre os próprios integrantes do grupo, a unidade poderia estar associada à devoção a YHWH.
Nesse sentido, “Shasu de Yhwꜣ” poderia representar uma designação anterior a “Israel”. O primeiro nome descreve a condição social e religiosa de uma comunidade móvel; o segundo descreve uma identidade coletiva já reconhecida em Canaã.
A hipótese torna-se particularmente plausível quando se considera que a Estela de Merneptá, cerca de um século depois de Soleb, menciona Israel não como cidade ou território, mas como povo. Isso sugere que Israel ainda possuía, no final do século XIII a.C., uma organização predominantemente tribal ou populacional.
A sequência documental pode ser interpretada da seguinte maneira:
Século XIV a.C., durante Amenófis III: grupos móveis associados a Yhwꜣ são conhecidos pelo Egito.
Final do século XIII a.C., durante Merneptá: uma população chamada Israel está estabelecida em Canaã.
Essa progressão é coerente com um processo de migração, agregação tribal e sedentarização. Os Shasu de Yhwꜣ podem representar os israelitas ou um componente israelita durante a fase de peregrinação; a Estela de Merneptá registraria uma etapa posterior, na qual essa população já se encontrava integrada às terras altas cananeias.
6. O argumento cronológico: Amenófis III e a peregrinação pelo deserto
A datação de Soleb durante o reinado de Amenófis III constitui um dos principais fundamentos da interpretação protoisraelita.
Em uma cronologia bíblica alta do Êxodo, construída a partir da leitura de 1 Reis 6:1, a saída do Egito seria situada aproximadamente 480 anos antes do início da construção do templo de Salomão. Dependendo da data adotada para o quarto ano de Salomão, o Êxodo seria colocado por volta de 1446 a.C.
Nesse modelo, Amenófis II é frequentemente proposto como candidato ao faraó do Êxodo, enquanto Amenófis III reinaria durante uma fase posterior da peregrinação, da reorganização tribal ou das primeiras movimentações de grupos ligados a Israel no deserto e na Transjordânia.
Não é possível estabelecer uma cronologia absoluta apenas pela soma dos números bíblicos, pois determinados números podem possuir valor esquemático ou teológico. Contudo, a proximidade entre a cronologia tradicional do Êxodo e a data da inscrição de Soleb é historicamente relevante.
Caso um grupo tenha deixado o Egito na primeira metade do século XV a.C. e permanecido durante décadas em regiões desérticas, seria perfeitamente possível que sua presença ou a presença de grupos relacionados fosse registrada pelos egípcios no século XIV a.C., durante Amenófis III.
A inscrição não afirma que esses Shasu estavam naquele momento realizando exatamente os quarenta anos de peregrinação descritos no Pentateuco. Entretanto, demonstra que, no período cronológico compatível com uma tradição antiga do Êxodo, existia uma população nômade associada ao Deus de Israel nas regiões desérticas conhecidas pelo Egito.
Esse é um ponto probatório importante. A inscrição não confirma cada detalhe da narrativa bíblica, mas fornece um contexto histórico independente no qual os elementos básicos da tradição são possíveis:
havia populações semíticas móveis nas regiões desérticas;
uma dessas populações era associada ao nome Yhwꜣ;
o Egito conhecia e registrava esse grupo;
o registro pertence ao período da XVIII Dinastia;
o documento antecede o estabelecimento inequívoco de Israel em Canaã.
A convergência não constitui uma demonstração absoluta, mas representa evidência circunstancial historicamente válida.
7. Geografia meridional e as tradições bíblicas sobre Javé
A hipótese de que os Shasu de Yhwꜣ fossem relacionados aos primeiros israelitas recebe apoio das antigas tradições bíblicas que descrevem Javé vindo do sul.
Em Juízes 5:4–5, o chamado Cântico de Débora declara que Javé saiu de Seir e avançou desde os campos de Edom. Deuteronômio 33:2 associa sua manifestação a Sinai, Seir e Parã. Habacuque 3:3 afirma que Deus veio de Temã e o Santo, do monte Parã.
Esses textos pertencem ao conjunto das tradições poéticas consideradas antigas por muitos estudiosos. Eles não situam a origem da manifestação de Javé nas cidades centrais de Canaã, mas em regiões desérticas meridionais: Sinai, Seir, Edom, Parã e Temã.
Frank Moore Cross analisou essas tradições no contexto da antiga poesia israelita e da figura de Javé como guerreiro divino.⁸ Mark S. Smith destacou que a religião israelita se desenvolveu mediante processos históricos de assimilação e diferenciação no interior do ambiente levantino, reconhecendo a relevância das associações meridionais de Javé.⁹ Juan Manuel Tebes tratou especificamente da hipótese de uma procedência meridional de YHWH e de suas relações com as tradições patriarcais e do Êxodo.¹⁰
Fleming também atribui grande importância à poesia antiga para reconstruir a memória de Javé anterior à organização política de Israel. Seu estudo do Cântico de Débora observa que a tradição pode preservar a presença de Javé em um horizonte histórico no qual a identidade de Israel ainda se encontrava em formação.¹¹
A relação entre essas tradições e Soleb é notável. A inscrição egípcia associa Yhwꜣ a populações Shasu do universo desértico meridional. A poesia bíblica antiga descreve Javé vindo precisamente dessa mesma direção geográfica.
A coincidência envolve:
o mesmo nome divino;
o mesmo horizonte meridional;
populações móveis;
um período anterior à consolidação monárquica de Israel;
a memória de deslocamento em direção a Canaã.
Quando diferentes tipos de fontes — inscrição egípcia e poesia israelita — convergem sobre elementos independentes, a hipótese histórica adquire maior poder explicativo. A inscrição de Soleb, portanto, não deve ser estudada isoladamente, mas como parte de um conjunto documental que aponta para a presença inicial de Javé entre populações do deserto ao sul de Canaã.
8. Peregrinação, nomadismo e formação da identidade israelita
A palavra “peregrinação” deve ser empregada historicamente com cuidado. Os Shasu não eram necessariamente viajantes sem território ou populações permanentemente errantes. Grupos pastoris podiam deslocar-se segundo estações, disponibilidade de água, pastagens, alianças e conflitos, mantendo vínculos com regiões específicas.
Ainda assim, essa mobilidade corresponde em termos gerais à condição atribuída a Israel nas tradições do deserto. O Pentateuco descreve uma população organizada em tribos, habitando tendas, movendo rebanhos e percorrendo regiões áridas entre o Egito e Canaã.
A inscrição de Soleb não emprega a linguagem teológica da narrativa bíblica. Do ponto de vista egípcio, aqueles grupos eram simplesmente Shasu estrangeiros. Entretanto, uma mesma população pode ser descrita de formas diferentes por fontes distintas.
O Egito classificaria a comunidade segundo seu modo de vida: Shasu.
A tradição israelita interpretaria o deslocamento segundo sua memória religiosa: peregrinação conduzida por Javé.
A diferença terminológica não exclui a possibilidade de referência à mesma realidade histórica. Ao contrário, pode refletir perspectivas distintas sobre um fenômeno comum.
O conceito de “protoisraelita” é particularmente útil nesse contexto. Ele não exige que todos os elementos da identidade israelita posterior já estivessem plenamente desenvolvidos. Refere-se a grupos humanos que contribuíram para a formação de Israel, compartilhando tradições, relações de parentesco, experiências migratórias ou devoção religiosa.
A associação exclusiva entre o grupo e Yhwꜣ constitui o elo mais forte. Muitos povos eram nômades; muitos grupos circulavam pelo sul do Levante. Mas a inscrição não menciona apenas Shasu. Ela distingue especificamente os Shasu de Yhwꜣ.
Como YHWH se tornou posteriormente o nome próprio e distintivo do Deus de Israel, é historicamente razoável concluir que essa população ocupava posição relevante na pré-história israelita.
9. A formação composta de Israel e o núcleo dos Shasu de Yhwꜣ
A identificação dos Shasu de Yhwꜣ com protoisraelitas não requer a afirmação de que todo o Israel posterior descendeu exclusivamente desse grupo.
A arqueologia das terras altas sugere que parte significativa da população israelita se desenvolveu a partir de comunidades locais cananeias. William G. Dever defende que a origem de Israel deve ser procurada principalmente nas transformações sociais ocorridas em Canaã, embora reconheça a complexidade de sua formação.¹² Ann E. Killebrew também descreve a etnogênese israelita como um processo multifacetado, envolvendo cultura material, autodefinição e interação entre populações.¹³
Essas conclusões não invalidam uma contribuição Shasu. Povos históricos frequentemente se formam pela união de grupos de origens diversas. Israel pode ter incorporado agricultores cananeus, pastores das terras altas, grupos socialmente deslocados, elementos vindos do Egito e populações provenientes da Transjordânia.
Nesse modelo composto, os Shasu de Yhwꜣ teriam oferecido algo decisivo: o culto a Javé e a memória de uma experiência no deserto.
Um grupo numericamente menor pode exercer enorme influência religiosa sobre uma população maior. Caso os Shasu de Yhwꜣ tenham migrado para Canaã e se unido a comunidades locais, sua divindade poderia ter se tornado o centro da nova identidade coletiva. A tradição do Êxodo poderia preservar a memória específica desse núcleo, posteriormente transformada em narrativa nacional de todo Israel.
A hipótese explica de maneira coerente por que:
Israel apresenta forte continuidade cultural com Canaã;
Javé parece possuir associações geográficas meridionais;
as tradições nacionais enfatizam uma origem no deserto;
uma inscrição egípcia anterior a Israel menciona Shasu associados a Yhwꜣ;
cerca de um século depois, Israel aparece como povo em Canaã.
Em vez de opor uma origem cananeia a uma origem desértica, o modelo compreende Israel como resultado da convergência entre ambas.
10. As limitações da evidência e a validade do argumento
Uma argumentação acadêmica favorável à identificação protoisraelita deve reconhecer os limites do documento.
Soleb não contém:
o nome Moisés;
o etnônimo Israel;
uma descrição do Êxodo;
uma narrativa de fuga do Egito;
informação explícita sobre a teologia dos Shasu;
indicação inequívoca de monoteísmo.
Essas ausências impedem que a inscrição seja apresentada como “prova definitiva do Êxodo”. Entretanto, não anulam seu valor evidencial.
Na investigação histórica, raramente um único documento confirma integralmente um acontecimento complexo. A análise depende da convergência entre cronologia, geografia, terminologia, contexto social e tradições independentes.
A inscrição de Soleb satisfaz vários critérios relevantes:
Antiguidade: pertence ao século XIV a.C., dentro de um horizonte cronológico compatível com uma tradição antiga do Êxodo.
Independência: foi produzida por escribas egípcios, não por autores israelitas interessados em confirmar uma tradição religiosa.
Especificidade religiosa: associa um grupo determinado ao nome Yhwꜣ.
Contexto social: identifica esse grupo dentro do universo das populações móveis ou seminômades.
Contexto geográfico: relaciona-se ao sul levantino e à Transjordânia, regiões associadas nas tradições bíblicas à manifestação de Javé.
Continuidade histórica: antecede a aparição de Israel em Canaã na Estela de Merneptá.
A ausência do nome “Israel” deve ser ponderada ao lado dessas convergências. Em um período formativo, seria perfeitamente possível que a população ainda não fosse conhecida externamente por esse etnônimo.
A identificação dos Shasu de Yhwꜣ como protoisraelitas é, portanto, uma inferência histórica, mas uma inferência fundamentada. Ela apresenta maior capacidade explicativa do que a interpretação segundo a qual a coincidência entre Yhwꜣ, o deserto, os Shasu e as tradições meridionais de Javé seria inteiramente acidental.
11. Amenófis III como marco histórico da evidência
O reinado de Amenófis III deve ocupar posição central na discussão. A inscrição foi registrada em um monumento real de seu período e reflete o conhecimento geográfico egípcio de sua época ou de décadas imediatamente anteriores.
Isso significa que, até o reinado de Amenófis III, a administração egípcia já reconhecia:
uma população móvel situada fora ou nas margens do domínio sedentário;
uma divisão específica dessa população;
a designação Yhwꜣ;
a importância suficiente desse grupo para incluí-lo em uma lista monumental.
O documento não é uma tradição israelita escrita retrospectivamente séculos depois. É um testemunho egípcio produzido no próprio ambiente histórico do Novo Império.
A data de Amenófis III torna-se especialmente significativa quando comparada à sucessão da XVIII Dinastia. Amenófis III sucedeu Tutemés IV, que por sua vez sucedeu Amenófis II. Nas reconstruções que situam o Êxodo durante ou próximo ao reinado de Amenófis II, o testemunho de Soleb aparece na geração faraônica seguinte.
Sob esse prisma, a inscrição poderia registrar a situação de grupos que, após uma saída ou ruptura com o Egito, encontravam-se nas regiões desérticas durante o processo de constituição tribal.
Essa leitura não pode ser imposta como única reconstrução possível. Todavia, ela apresenta coerência cronológica:
Amenófis II: possível horizonte de saída ou conflito com grupos semíticos;
Tutemés IV: período de transição;
Amenófis III: reconhecimento egípcio de Shasu associados a Yhwꜣ;
Merneptá, cerca de um século depois: Israel documentado em Canaã.
A sucessão sugere um desenvolvimento histórico possível entre saída, peregrinação, agregação tribal e estabelecimento.
A inscrição de Soleb constitui uma das evidências mais importantes para a reconstrução das origens históricas de Israel e do culto a Javé. Produzida no contexto do reinado de Amenófis III, no século XIV a.C., ela registra uma população denominada “Shasu de Yhwꜣ”, isto é, um grupo pertencente ao universo dos pastores móveis ou seminômades e associado a um nome correspondente ao tetragrama YHWH.
A identificação de Yhwꜣ com Javé possui forte fundamento linguístico e amplo reconhecimento na pesquisa. Consequentemente, Soleb pode ser considerada a mais antiga referência egípcia conhecida ao nome do Deus de Israel.
O documento não emprega literalmente o nome “Israel”, mas essa ausência não impede a identificação dos Shasu de Yhwꜣ como protoisraelitas. Pelo contrário, pode refletir uma fase anterior à consolidação do etnônimo Israel, quando a população ainda era reconhecida externamente por sua mobilidade e por sua associação religiosa.
A interpretação ganha força mediante a convergência de cinco fatores: a datação no reinado de Amenófis III, a condição nômade dos Shasu, a presença do nome Yhwꜣ, a localização meridional do grupo e as tradições bíblicas que descrevem Javé vindo de Seir, Edom, Parã e Temã.
Considerados em conjunto, esses elementos permitem defender que a inscrição registra um grupo relacionado à formação de Israel e, possivelmente, uma comunidade israelita ainda em peregrinação pelo deserto. Não se trata necessariamente de todo o Israel posterior, mas de um núcleo tribal ou religioso que carregava o culto a Javé e que posteriormente se integrou a outras populações nas terras altas de Canaã.
A sequência entre Soleb e a Estela de Merneptá é particularmente reveladora. No século XIV a.C., o Egito conhece os Shasu de Yhwꜣ no horizonte do deserto. No final do século XIII a.C., conhece um povo chamado Israel em Canaã. Entre esses dois registros pode situar-se o processo histórico de passagem da mobilidade à sedentarização e de uma identidade tribal vinculada a Javé à formação de Israel como povo.
A inscrição de Soleb não deve ser apresentada como prova isolada de todos os acontecimentos narrados no Pentateuco. Ela deve, porém, ser reconhecida como evidência externa, antiga e independente de que, no período de Amenófis III, uma população nômade associada ao nome de Javé era conhecida pelos egípcios.
Por isso, a conclusão historicamente mais explicativa é que os “Shasu de Yhwꜣ” não eram apenas um grupo nômade sem relação com Israel, mas representavam, ao menos em parte, uma população protoisraelita: os adoradores de Javé ainda no deserto, antes que o Egito voltasse a encontrá-los em Canaã sob o nome coletivo de Israel.
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Referências
[1] FLEMING, Daniel E. Yahweh Before Israel: Glimpses of History in a Divine Name. Cambridge: Cambridge University Press, 2021. cap. 1-2.
[2] FLEMING, Daniel E. Yahweh Before Israel: Glimpses of History in a Divine Name. Cambridge: Cambridge University Press, 2021. A apresentação editorial da obra destaca a ocorrência do nome de Javé em uma lista egípcia referente às populações habitantes de tendas denominadas Shasu.
[3] FLEMING, Daniel E. Yahweh before Israel: Glimpses of History in a Divine Name. Cambridge: Cambridge University Press, 2021. cap. “Yhwꜣ of Shasu-Land”. O autor sustenta que o contato egípcio subjacente à lista de Soleb ocorreu durante o reinado de Amenófis III ou em período anterior.
[4] WEIPPERT, Manfred. Semitische Nomaden Des Zweiten Jahrtausends. Biblica, Roma, v. 55, p. 265-280; 427-433, 1974.
[5] REDFORD, Donald B. Egypt, Canaan, and Israel in Ancient Times. Princeton: Princeton University Press, 1992.
[6] FLEMING, Daniel E. Yahweh Before Israel: Glimpses of History in a Divine Name. Cambridge: Cambridge University Press, 2021. cap. 1, 2 e 5.
[7] FLEMING, Daniel E. Yahweh Before Israel: Glimpses of History in a Divine Name. Cambridge: Cambridge University Press, 2021. O autor distingue a forma egípcia Yhwꜣ, sua função nas listas referentes aos Shasu e sua provável relação histórica com o nome divino YHWH.
[8] CROSS, Frank Moore. Canaanite Myth and Hebrew Epic: Essays in The History of The Religion of Israel. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 1973.
[9] SMITH, Mark S. The Early History of God: Yahweh And the Other Deities in Ancient Israel. 2. ed. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 2002; SMITH, Mark S. The Origins of Biblical Monoteism: Israel’s Polytheistic Background and the Ugaritic Texts. Oxford: Oxford University Press, 2001.
[10] TEBES, Juan Manuel. The Southern Home of YHWH and Pre-Priestly Patriarchal/Exodus Traditions from a Southern Perspective. Biblica, Roma, v. 98, n. 2, p. 166-188, 2017.
[11] FLEMING, Daniel E. The Old Poetry. In: FLEMING, Daniel E. Yahweh Before Israel: Glimpses of History in a Divine Name. Cambridge: Cambridge University Press, 2021. p. 111-161.
[12] DEVER, William G. Who Were The Early Israelites and Where Did They Come From? Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 2003.
[13] KILLEBREW, Ann E. Biblical Peoples and Ethnicity: An Archaeological Study of Egyptians, Canaanites, Philistines, and early Israel, 1300-1100 B.C.E. Atlanta: Society of Biblical Literature, 2005.