A avaliação histórica dos Evangelhos canônicos exige que se evitem dois extremos metodologicamente inadequados. O primeiro consiste em pressupor que, por serem documentos religiosos e teologicamente interessados, Mateus, Marcos, Lucas e João não possam transmitir informação histórica confiável. O segundo consiste em considerar que sua natureza religiosa assegure, por si só, a exatidão histórica de cada detalhe narrativo. Nenhuma dessas posições corresponde ao procedimento normal da historiografia antiga. Documentos produzidos com interesses políticos, religiosos ou apologéticos não são descartados pelo historiador; são submetidos à crítica das fontes, à comparação documental, à contextualização cronológica e geográfica e ao exame de possíveis confirmações independentes. Considerados dessa maneira, os Evangelhos apresentam fundamentação histórica substancial para a reconstrução de Jesus de Nazaré, embora o grau de segurança varie conforme a tradição examinada. A existência de Jesus, sua inserção no judaísmo palestino do século I, sua associação com João Batista, sua atividade pública, a formação de um círculo de discípulos, sua proclamação do Reino de Deus e sua execução por crucificação durante a administração de Pôncio Pilatos pertencem a um núcleo historicamente muito sólido. Outros elementos — especialmente formulações exatas de discursos, determinadas sequências cronológicas, episódios particulares das narrativas da infância e a interpretação sobrenatural de determinados acontecimentos — encontram-se em níveis diferentes de verificabilidade histórica.
Natureza documental e gênero dos Evangelhos
Uma primeira questão diz respeito ao gênero literário. A investigação de Richard A. Burridge tornou particularmente influente a classificação dos Evangelhos dentro do amplo espectro da biografia greco-romana antiga, o bios.¹ Essa identificação possui consequências historiográficas relevantes. Os Evangelhos não têm a estrutura de crônicas modernas nem pretendem oferecer transcrições stenográficas da vida de Jesus; contudo, concentram-se em uma personagem histórica específica, em suas palavras, ações, relações, caráter e morte, precisamente como ocorre nas biografias antigas. A identificação com o bios não demonstra automaticamente a historicidade de cada episódio, mas torna inadequado classificá-los simplesmente como mito religioso desvinculado de intenção referencial histórica. A obra de Burridge tornou-se referência importante justamente por mostrar que a forma literária dos Evangelhos possui paralelos reais no mundo greco-romano.¹ A composição final dos Evangelhos, além disso, deve ser distinguida da idade das tradições neles incorporadas. A cronologia exata permanece discutida, porém uma datação amplamente empregada situa Marcos aproximadamente entre 65 e 70 d.C., Mateus e Lucas uma ou duas décadas posteriormente e João próximo ao final do século I.² Essas datas são aproximações críticas, não resultados matematicamente demonstráveis; o presente autor discorda das posições críticas atuais preferindo uma datação mais precoce para redação do evangelhos e contudo, significa que o Evangelho mais antigo provavelmente foi redigido cerca de três a quatro décadas depois da morte de Jesus, e não séculos depois. Uma introdução acadêmica publicada pela Cambridge University Press observa precisamente a plausibilidade de Marcos por volta de 65–70, Mateus e Lucas posteriormente e João aproximadamente entre 90–100, ressaltando ao mesmo tempo que tais datas continuam abertas a discussão e em relação a datação do Evangelhos aqui não entraremos em detalhes.² Essa distância cronológica precisa ainda ser relativizada por uma evidência anterior aos próprios Evangelhos: as cartas autênticas de Paulo. Os escritos paulinos são as fontes cristãs preservadas mais antigas, a Carta aos Gálatas e 1 Tessalonicenses é normalmente situada em torno de 48 e 50 d.C. respectivamente, cerca de vinte anos após a crucificação.³ Paulo não escreveu uma biografia de Jesus, mas suas cartas mostram que, antes da redação dos Evangelhos, já circulavam tradições acerca da morte de Jesus, de sua crucificação, de sua última ceia, de sua descendência judaica, de seus ensinamentos e, sobretudo, da convicção de que havia ressuscitado corporalmente. Em Gálatas 1–2, Paulo menciona contatos pessoais com Cefas/Pedro e Tiago, identificado como “irmão do Senhor”. Historicamente, isso é significativo porque aproxima uma fonte escrita dos anos 50 de pessoas situadas na primeira geração do movimento de Jesus.
Tradição oral, memória e dependência literária
O intervalo entre Jesus e os Evangelhos não corresponde, portanto, a um período documentalmente vazio. James D. G. Dunn insistiu que a tradição de Jesus circulou predominantemente de forma oral antes e mesmo depois da redação dos Evangelhos. Segundo Dunn, tradições orais não devem ser concebidas nem como reproduções verbatim perfeitamente imóveis nem como material infinitamente maleável: apresentam uma combinação de estabilidade e flexibilidade, característica de culturas de transmissão oral.⁴ Isso ajuda a explicar por que os Evangelhos podem preservar estruturas narrativas, temas e ensinamentos semelhantes enquanto divergem na formulação verbal ou na disposição dos acontecimentos. Dale C. Allison Jr. desenvolve abordagem complementar ao incorporar os estudos sobre memória à investigação do Jesus histórico. Em vez de pressupor que cada unidade isolada possa ser classificada com segurança simplesmente como “autêntica” ou “inautêntica”, Allison enfatiza a força dos padrões recorrentes da tradição.⁵ Quando diversas tradições convergem repetidamente para determinada imagem — Jesus como proclamador escatológico, mestre, realizador de curas, personagem em conflito e finalmente crucificado — o padrão global pode ter maior força histórica do que a tentativa de demonstrar isoladamente cada frase atribuída a Jesus. Essa abordagem introduz prudência metodológica sem exigir ceticismo radical acerca da memória histórica. Bauckham por sua vez propôs uma tese mais forte, defendendo que os Evangelhos se encontram muito mais próximos de testemunhos pessoais identificáveis do que admitia parte da pesquisa do século XX.⁶ Sua interpretação de nomes, tradições de Papias e padrões narrativos procura demonstrar que testemunhas oculares permaneceram relevantes na transmissão das tradições sobre Jesus. A tese é influente, mas não constitui consenso irrestrito; recebeu tanto apoio quanto críticas significativas. Historiograficamente, portanto, é mais prudente afirmar que existem argumentos sérios para alguma participação de memória testemunhal na tradição evangélica, sem transformar toda a teoria de Bauckham em premissa necessária para a confiabilidade dos Evangelhos.⁶ Igualmente importante é reconhecer que os Evangelhos não constituem quatro testemunhos literariamente independentes. A prioridade de Marcos permanece a posição predominante na pesquisa crítica: supondo que Mateus e Lucas provavelmente utilizaram Marcos, ainda que o modelo preciso de suas demais relações literárias permaneça discutido o que o presente autor considera pertinente. O próprio Craig A. Evans observa, em seu comentário sobre Mateus, que a solução majoritária atribui prioridade a Marcos e entende que Mateus e Lucas utilizaram esse Evangelho.⁷ A forte semelhança verbal e sequencial entre os Sinópticos fornece a base dessa conclusão. Assim, quando um mesmo episódio aparece em Marcos, Mateus e Lucas, não se pode automaticamente falar de três testemunhos independentes. A dependência literária reduz o valor de uma contagem meramente quantitativa de fontes e obriga o historiador a investigar camadas, tradições e possíveis linhas independentes de transmissão. Reconhecer essa dependência, entretanto, não destrói a historicidade do material. Significa apenas que a evidência precisa ser pesada segundo sua genealogia documental.
Contexto histórico e verossimilhança
Craig A. Evans em sua análise atribui especial importância àquilo que pode ser denominado verossimilhança histórico-contextual dos Evangelhos. Seu argumento não consiste em afirmar que a arqueologia “prove a Bíblia” episódio por episódio, mas que as narrativas canônicas demonstram familiaridade considerável com o ambiente judaico da Palestina romana: localidades, práticas funerárias, sinagogas, estruturas sacerdotais, costumes religiosos, instituições e personagens historicamente verificáveis.⁸ Em Jesus and His World: The Archaeological Evidence, O professor Evans examina especificamente Nazaré e sua região, a existência e função das sinagogas, alfabetização, sacerdócio, Templo e costumes judaicos de sepultamento.⁸ O valor desse material é cumulativo. A arqueologia não pode demonstrar, por exemplo, que determinada conversa entre Jesus e um discípulo ocorreu; pode, contudo, mostrar se a paisagem social e institucional pressuposta pela narrativa corresponde ao período no qual ela afirma estar situada. A investigação arqueológica examinada por Evans reforça em diversos pontos essa correspondência entre os Evangelhos e a Palestina do século I. Evans formulou explicitamente sua posição afirmando que os Evangelhos do Novo Testamento oferecem um retrato historicamente utilizável de Jesus e chamou atenção para o fato de historiadores e arqueólogos empregarem regularmente os Evangelhos e Atos na reconstrução do mundo do primeiro século.⁹ Esse argumento deve ser formulado com precisão: correspondência contextual não equivale a demonstração integral dos acontecimentos narrados. Um romance moderno pode descrever corretamente uma cidade real sem que todos os acontecimentos sejam históricos. No caso dos Evangelhos, porém, a verossimilhança contextual torna mais plausível que suas tradições tenham se desenvolvido em contato relativamente próximo com o ambiente histórico retratado, sobretudo quando combinada com outras linhas de evidência.
O núcleo historicamente recuperável de Jesus
Sanders foi particularmente importante para estabelecer uma metodologia na qual se distinguem fatos altamente prováveis de reconstruções mais especulativas. Em The Historical Figure of Jesus, Sanders procura justamente separar aquilo que pode ser considerado historicamente seguro ou altamente provável daquilo que permanece incerto.¹⁰ Sua reconstrução situa Jesus integralmente dentro do judaísmo do século I e considera historicamente firme um conjunto básico de acontecimentos: Jesus foi judeu, esteve ligado a João Batista, desenvolveu atividade pública na Galileia, reuniu discípulos, proclamou uma mensagem religiosa centrada no governo de Deus, entrou em conflito em Jerusalém e terminou crucificado pelos romanos.¹⁰ É significativo que esse núcleo não dependa exclusivamente de estudiosos confessionais. Bart D. Ehrman, historiador crítico do cristianismo antigo e pessoalmente não comprometido com a crença cristã tradicional, considera a inexistência histórica de Jesus uma hipótese incapaz de explicar adequadamente o conjunto das evidências disponíveis.¹¹ Sua argumentação atribui especial peso às fontes paulinas, precisamente porque Paulo escreveu relativamente cedo e afirma ter conhecido Pedro e Tiago.¹¹ O consenso acerca da existência de Jesus, portanto, não resulta de uma pressuposição teológica comum entre pesquisadores, mas da convergência documental considerada segundo métodos históricos ordinários. Meier procurou expressar essa abordagem através de uma experiência metodológica conhecida: imaginar um conclave de pesquisadores de diferentes convicções — católico, protestante, judeu e agnóstico — perguntando o que poderiam afirmar conjuntamente sobre Jesus utilizando apenas argumentos históricos públicos.¹² O objetivo não era construir uma figura “neutra” de Jesus, mas distinguir proposições historiograficamente argumentáveis de afirmações que dependem de compromissos confessionais. O resultado de investigações desse tipo continua sendo uma personagem historicamente concreta, não uma figura vaga criada retrospectivamente pela Igreja.¹²
Fontes independentes: Josefo e Tácito
A evidência exterior aos escritos cristãos é limitada, como seria esperado para um pregador judeu provincial executado durante o principado de Tibério, mas não é inexistente. Duas fontes assumem importância especial. Flávio Josefo, historiador judeu do século I, menciona em Antiguidades Judaicas 20.200 a execução de Tiago, identificado como irmão de “Jesus, chamado Cristo”.¹³ Essa passagem é geralmente considerada muito mais segura textualmente do que o famoso Testimonium Flavianum de Antiguidades 18.63–64. O Testimonium, em sua forma manuscrita tradicional, contém expressões que dificilmente provêm integralmente da lavra de Josefo e provavelmente sofreu edição cristã posterior. Isso exige cautela. Contudo, muitos estudiosos incluindo o presente autor consideram provável que exista um núcleo josefiano por trás da forma transmitida. Historicamente, a referência mais modesta a Tiago permanece especialmente importante porque identifica Jesus casualmente, não como objeto central de uma argumentação apologética. Tácito, escrevendo seus Anais no início do século II, afirma que os cristãos recebiam seu nome de Christus, que havia sofrido a pena capital durante o Principado de Tibério sob Pôncio Pilatos.¹⁴ A passagem ocorre no contexto da perseguição promovida por Nero após o incêndio de Roma, e Tácito demonstra evidente hostilidade ao movimento cristão; portanto, não se trata de propaganda cristã. Sua notícia é posterior aos acontecimentos e não confirma os detalhes dos Evangelhos, mas oferece testemunho romano independente para um elemento fundamental da tradição: a execução de Cristo sob Pilatos.¹⁴ Esses testemunhos externos não são suficientes para reconstruir a vida de Jesus sem os Evangelhos. Sua importância está justamente na convergência: elementos importantes presentes nas fontes cristãs encontram confirmação em autores que não pertenciam ao movimento.
A Crucificação como ponto de máxima segurança histórica
Entre os acontecimentos relatados nos Evangelhos, a crucificação de Jesus possui grau excepcionalmente elevado de segurança. Ela está presente em tradições cristãs muito antigas, inclusive Paulo; constitui o centro das narrativas da paixão; é compatível com práticas romanas conhecidas; e é mencionada por Tácito. Além disso, dificilmente representava um elemento vantajoso para a propaganda de um movimento que proclamava seu líder como Messias. A morte vergonhosa por execução romana exigiu explicação teológica por parte dos primeiros cristãos, em vez de fornecer-lhes um dado naturalmente prestigioso. Paula Fredriksen toma precisamente a crucificação como um dos pontos de partida mais sólidos para reconstruir historicamente Jesus.¹⁵ A pergunta histórica relevante passa então a ser: que tipo de atividade e percepção pública poderia ter levado uma autoridade romana a executar Jesus em Jerusalém? A própria natureza romana da pena relaciona sua morte com o problema da ordem pública e da autoridade imperial, ainda que a participação concreta de lideranças judaicas na sequência dos acontecimentos precise ser examinada criticamente e sem reproduzir interpretações posteriores marcadas por polêmica antijudaica. O resultado é importante: mesmo quando historiadores divergem amplamente quanto à autocompreensão de Jesus, ao significado preciso de sua mensagem ou à historicidade de episódios específicos, a crucificação sob Pilatos permanece praticamente no centro comum das reconstruções históricas.
Teologia, diferenças narrativas e limites da demonstração
Os Evangelhos são simultaneamente fontes históricas e documentos teológicos. Não existe razão metodológica para imaginar que essas duas características sejam incompatíveis. Historiadores utilizam continuamente documentos antigos cujos autores pretendiam persuadir seus leitores. O interesse teológico exige crítica; não exige descarte. As divergências entre os Evangelhos devem, portanto, ser reconhecidas em vez de artificialmente eliminadas. As narrativas da infância de Mateus e Lucas não são idênticas; João organiza parte da atividade pública de Jesus de maneira diferente dos Sinópticos; há diferenças na cronologia da paixão e variações significativas nos relatos do túmulo e das aparições. A investigação histórica deve perguntar qual tradição é mais antiga, se existe dependência literária, se diferentes perspectivas podem ser complementares e, em alguns casos, se permanece impossível determinar exatamente qual sequência ocorreu. Uma introdução acadêmica de Yale resume bem essa situação ao observar que certos relatos neotestamentários não podem simplesmente ser combinados em uma narrativa perfeitamente uniforme e que o historiador necessita empregar critérios históricos para avaliar as tradições.¹⁶ Essa constatação não implica que os Evangelhos sejam historicamente frágeis. Significa que sua confiabilidade é graduada. É possível possuir elevado grau de confiança de que Jesus foi crucificado sob Pilatos e muito menor grau de confiança acerca da formulação exata de determinada conversa privada. Essa diferenciação de probabilidades é precisamente aquilo que caracteriza uma investigação histórica madura.
Milagres e Ressurreição: a fronteira do método histórico
O mesmo rigor precisa ser aplicado aos relatos de milagres. O historiador pode estabelecer que tradições segundo as quais Jesus realizava curas e exorcismos são antigas e amplamente difundidas. Pode investigar como contemporâneos interpretavam essas atividades e avaliar se a reputação de Jesus como curador pertence ao estrato histórico de sua atividade. O que a historiografia, enquanto disciplina, não consegue demonstrar pelos mesmos procedimentos é que a causa última de uma cura foi uma intervenção sobrenatural de Deus. A ressurreição exige distinção semelhante. Historicamente, pode-se investigar a morte de Jesus, as tradições sobre seu sepultamento, a origem extremamente precoce da crença na Ressurreição, a tradição de aparições e a transformação do movimento após a crucificação. Paulo já conhece e transmite, em 1 Coríntios 15, uma tradição sobre morte, sepultamento, Ressurreição e aparições que é anterior à própria carta. Isso demonstra que a fé na Ressurreição não surgiu apenas no final do século I, quando os Evangelhos foram redigidos. A afirmação ulterior — Deus efetivamente Ressuscitou Jesus corporalmente dentre os mortos — introduz, contudo, uma explicação metafísica. Allison argumenta que os dados históricos relacionados à ressurreição devem ser examinados seriamente, mas também que apologética e ceticismo podem exceder aquilo que a evidência, sozinha, permite afirmar.¹⁷ A historiografia consegue mapear os acontecimentos, testemunhos e convicções que requerem explicação; decidir que uma ação divina constitui a melhor explicação envolve também pressupostos filosóficos acerca da realidade e da possibilidade do sobrenatural.
Considerações finais
A análise cumulativa portanto das evidências permite uma conclusão historicamente robusta. Os Evangelhos canônicos constituem fontes antigas essenciais e substancialmente fundamentadas para o conhecimento histórico de Jesus de Nazaré. Essa conclusão não depende de pressupor inspiração bíblica, inerrância ou concordância absoluta entre os quatro relatos. Ela decorre de um conjunto convergente de fatores: relativa proximidade cronológica aos acontecimentos; existência de documentação cristã ainda mais antiga nas cartas de Paulo; continuidade entre tradição oral e escrita; forte inserção dos relatos no judaísmo e na Palestina do século I; correspondências arqueológicas e institucionais; múltiplas linhas de tradição; e confirmação externa, ainda que limitada, por Josefo e Tácito. O rigor histórico exige igualmente reconhecer os limites dessas evidências. Segundo a critica especializada Mateus e Lucas "dependem extensamente de Marcos"; nem todas as tradições possuem independência documental; os evangelistas selecionaram e organizaram o material segundo interesses teológicos; a memória pode conservar acontecimentos e padrões ao mesmo tempo que modifica detalhes; e nem todas as divergências entre os Evangelhos podem ser resolvidas com segurança. O juízo mais bem proporcionado às evidências encontra-se, portanto, entre credulidade acrítica e ceticismo radical. Não é historicamente necessário sustentar que cada frase dos Evangelhos reproduza verbatim as palavras de Jesus para concluir que eles conservam memória genuína de sua atividade. Da mesma forma, reconhecer elaboração literária e teológica não autoriza reduzir Jesus a uma criação tardia das comunidades cristãs. O núcleo histórico que emerge das fontes é consideravelmente firme: Jesus foi um judeu galileu do primeiro século; esteve associado a João Batista; proclamou o Reino de Deus; ensinou e reuniu discípulos; adquiriu reputação como realizador de curas e exorcismos; dirigiu-se finalmente a Jerusalém; entrou em conflito num contexto relacionado ao Templo e à autoridade; e foi executado por crucificação durante a administração de Pôncio Pilatos. Após sua morte, seus seguidores chegaram muito cedo à convicção de que ele havia ressuscitado e, em poucos anos, formaram comunidades que o proclamavam Messias e Senhor. A historiografia permanece aberta à discussão sobre os pormenores e sobre a interpretação última desses acontecimentos. Mas as evidências disponíveis tornam muito mais plausível que os Evangelhos preservem um amplo substrato de memória histórica do que que sejam construções lendárias tardias sem conexão substancial com o Jesus real. É nesse sentido delimitado, crítico e evidencial que se pode afirmar que os Evangelhos repousam sobre uma sólida fundamentação histórica.
Notas
¹ Richard A. Burridge, What Are the Gospels? A Comparison with Graeco-Roman Biography, 2. ed. (Grand Rapids: Eerdmans, 2004). Burridge compara sistematicamente a estrutura dos Evangelhos com exemplares de biografia greco-romana e sustenta sua inserção no gênero do bios antigo.
² Graham N. Stanton, “The Gospels and Jesus”, em The Cambridge Companion to Jesus, e discussão introdutória da datação dos Evangelhos reproduzida pela Cambridge University Press. A cronologia aproximadamente 65–70 para Marcos, décadas de 80–90 para Mateus/Lucas e fim do século I para João representa uma reconstrução acadêmica predominante, embora não incontroversa.
³ Dale B. Martin, Introduction to the New Testament History and Literature, Yale University, aulas 2 e 5. Martin observa que as cartas paulinas constituem a documentação cristã escrita preservada mais antiga e situa 1 Tessalonicenses aproximadamente no ano 50.
⁴ James D. G. Dunn, Jesus Remembered, Christianity in the Making, vol. 1 (Grand Rapids: Eerdmans, 2003); idem, “Altering the Default Setting: Re-envisaging the Early Transmission of the Jesus Tradition”, New Testament Studies 49 (2003). Dunn sustenta que a fase mais antiga da tradição de Jesus foi predominantemente oral e que a tradição oral combina estabilidade de estrutura com flexibilidade de execução.
⁵ Dale C. Allison Jr., Constructing Jesus: Memory, Imagination, and History (Grand Rapids: Baker Academic, 2010). Allison privilegia padrões recorrentes de memória sobre a pretensão de autenticar mecanicamente cada unidade individual da tradição.
⁶ Richard Bauckham, Jesus and the Eyewitnesses: The Gospels as Eyewitness Testimony, 2. ed. (Grand Rapids: Eerdmans, 2017). A obra defende uma relação particularmente estreita entre os Evangelhos e testemunhas oculares, tese importante e discutida na pesquisa contemporânea.
⁷ Craig A. Evans, Matthew, New Cambridge Bible Commentary (Cambridge: Cambridge University Press). Evans apresenta como posição dominante a prioridade de Marcos e a utilização de Marcos por Mateus e Lucas, sem negar as discussões existentes acerca das demais fontes e relações sinópticas.
⁸ Craig A. Evans, Jesus and His World: The Archaeological Evidence (Louisville: Westminster John Knox Press, 2012), especialmente os capítulos sobre Nazaré e Séforis, sinagogas, alfabetização, sacerdócio e práticas funerárias judaicas.
⁹ Craig A. Evans, “Do the New Testament Gospels Present a Reliable Portrait of the Historical Jesus?”, ERA 13, n. 2 (2016): 17–26. Evans responde afirmativamente, apoiando-se particularmente na verossimilhança histórica e arqueológica dos Evangelhos e de Atos.
¹⁰ E. P. Sanders, The Historical Figure of Jesus (London: Penguin Press, 1993; ed. Penguin Books, 1996). Sanders distingue conscientemente fatos de elevada probabilidade de reconstruções mais incertas e situa Jesus no contexto histórico e religioso do judaísmo do século I.
¹¹ Bart D. Ehrman, Did Jesus Exist? The Historical Argument for Jesus of Nazareth (New York: HarperOne, 2012). Ehrman sustenta que a existência histórica de Jesus é a conclusão normal da pesquisa especializada e utiliza, entre outras evidências, Paulo e suas relações com membros da primeira geração do movimento.
¹² John P. Meier, A Marginal Jew: Rethinking the Historical Jesus, vol. 1, The Roots of the Problem and the Person (New York: Doubleday, 1991). Meier procura delimitar metodologicamente aquilo que pode ser afirmado acerca de Jesus mediante argumentos historiográficos compartilháveis por pesquisadores de diferentes posições religiosas.
¹³ Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 18.63–64; 20.200. A passagem referente a Tiago em 20.200 é geralmente considerada textualmente mais segura que o Testimonium Flavianum de 18.63–64, cuja forma transmitida contém prováveis alterações cristãs.
¹⁴ Tácito, Anais 15.44. O historiador romano relaciona a origem do nome dos cristãos a Christus e afirma que este sofreu a pena capital sob Pôncio Pilatos durante o principado de Tibério.
¹⁵ Paula Fredriksen, Jesus of Nazareth, King of the Jews (New York: Vintage, 2000); idem, “Why Was Jesus Crucified, but His Followers Were Not?”, Journal for the Study of the New Testament 29, n. 4 (2007). Fredriksen utiliza a crucificação como dado histórico fundamental para reconstruir o contexto político da morte de Jesus.
¹⁶ Dale B. Martin, “The Historical Jesus”, Introduction to the New Testament History and Literature, Yale University. Martin explicita a necessidade de reconhecer divergências documentais e utilizar critérios históricos na reconstrução de Jesus.
¹⁷ Dale C. Allison Jr., The Resurrection of Jesus: Apologetics, Polemics, History (London: T&T Clark/Bloomsbury, 2021). Allison examina criticamente as principais linhas de evidência relacionadas à ressurreição e procura distinguir aquilo que a historiografia pode estabelecer das conclusões filosóficas ou teológicas extraídas desses dados.
REFERÊNCIAS
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[6] BAUCKHAM, Richard. Jesus And The Eyewitnesses: the Gospels As Eyewitness Testimony. 2. ed. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 2017.
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[8] EVANS, Craig A. Jesus And His World: The Archaeological Evidence. Louisville: Westminster John Knox Press, 2012.
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[11] EHRMAN, Bart D. Did Jesus Exist? The Historical Argument for Jesus of Nazareth. New York: HarperOne, 2012.
[12] MEIER, John P. A Marginal Jew: Rethinking the Historical Jesus. New York: Doubleday, 1991. v. 1: The Roots of the Problem and the Person.
[13] JOSEFO, Flávio. Antiguidades judaicas. XVIII, 63-64; XX, 200.
[14] TÁCITO, Cornélio. Anais. XV, 44.
[15] FREDRIKSEN, Paula. Jesus of Nazareth, King of the Jews: a Jewish Life and The Emergence of Christianity. New York: Alfred A. Knopf, 1999.
[16] FREDRIKSEN, Paula. Why Was Jesus Crucified, But his Followers Were Not? Journal For the Study of the New Testament, London, v. 29, n. 4, p. 415-419, 2007.
[17] MARTIN, Dale B. The Historical Jesus. In: MARTIN, Dale B. Introduction to the New Testament History and Literature. New Haven: Yale University, Open Yale Courses.
[18] ALLISON JR., Dale C. The Resurrection of Jesus: Apologetics, Polemics, History. London: T&T Clark, 2021.
