A classificação literária e historiográfica dos Evangelhos e de Atos dos Apóstolos ocupa lugar central no estudo histórico-crítico do Novo Testamento. A comparação desses documentos com a literatura greco-romana permite situá-los não como produções literárias isoladas de seu ambiente cultural, mas como obras que compartilham convenções reconhecíveis da biografia e da historiografia antigas. Os Evangelhos apresentam características suficientemente próximas do bios greco-romano para que sua classificação como formas de biografia antiga tenha alcançado amplo reconhecimento na pesquisa contemporânea; Atos, por sua vez, apresenta afinidades substanciais com a historiografia antiga, embora permaneça aberto o debate quanto à especificação exata de seu gênero. Particularmente significativo é o prefácio de Lucas 1:1–4, no qual aparecem referências a relatos anteriores, testemunhas oculares, investigação cuidadosa, ordenação do material e busca de segurança quanto aos acontecimentos narrados. Tais elementos encontram analogias metodológicas na historiografia grega, especialmente em Heródoto e Tucídides. A análise literária pode ainda ser associada à evidência epigráfica e arqueológica, que em determinados casos confirma pessoas, títulos administrativos, instituições e ambientes geográficos pressupostos por Lucas-Atos. No presente estudo examinaremos sinteticamente esses elementos, distinguindo, porém, entre identificação de gênero, intenção histórica, precisão de informações particulares e comprovação independente de acontecimentos específicos.
Da historía grega ao conceito de História
A própria palavra “História” conserva em sua origem uma importante indicação acerca do empreendimento intelectual que viria a designar. O substantivo grego ἱστορία (historía) não significava originalmente apenas uma narrativa sobre acontecimentos passados. O léxico clássico registra como seus sentidos fundamentais “investigação”, “aprendizado por investigação” e o conhecimento adquirido mediante esse processo; posteriormente, o termo passou também a designar o relato escrito resultante da investigação. O verbo correspondente, ἱστορέω (historéō), significa investigar, inquirir ou procurar conhecer.¹ Assim, na tradição grega, a passagem da simples memória do passado para aquilo que progressivamente se tornou historiografia está associada a um princípio epistemológico: para narrar acontecimentos é necessário procurar informações sobre eles, examinar testemunhos e organizar o conhecimento obtido. É particularmente significativo que Heródoto de Halicarnasso, no século V a.C., abra sua obra designando-a como a apresentação de sua ἱστορίη (historíē), isto é, de sua investigação, cujo propósito seria preservar da obscuridade os feitos dos seres humanos e explicar, entre outras questões, as causas dos conflitos entre gregos e povos não gregos.² O sentido de “história” emerge, portanto, de uma atividade investigativa antes de adquirir plenamente o sentido moderno de estudo do passado. Isso não significa que Heródoto tenha praticado a História segundo os padrões metodológicos modernos. Sua narrativa incorpora tradições orais, descrições etnográficas, discursos, maravilhas, relatos alternativos e materiais que o historiador contemporâneo submeteria a diferentes graus de avaliação crítica. Entretanto, precisamente dentro de sua obra pode-se observar a formação de procedimentos que se tornariam fundamentais à historiografia. Heródoto distingue repetidamente aquilo que viu daquilo que ouviu, consulta informantes, apresenta versões divergentes e, em determinadas ocasiões, manifesta sua própria avaliação sobre qual delas considera mais provável. Irene de Jong sintetiza sua prática observando que a historíē herodoteana envolve investigação mediante informantes e testemunhas, tradição oral, autópsia, no sentido antigo de conhecimento obtido pela observação direta, e raciocínio destinado a avaliar versões concorrentes.³ Tucídides, escrevendo sobre a Guerra do Peloponeso, aprofundou esse ideal investigativo. Em um célebre trecho programático de sua obra, especialmente em 1.20–22, declara ter encontrado grande dificuldade em determinar com precisão os acontecimentos porque testemunhas distintas forneciam versões diferentes segundo suas simpatias ou sua memória. Afirma que não se contentava com a primeira informação recebida e diferencia o tratamento dos acontecimentos do tratamento dos discursos. Quanto a estes últimos, reconhece a impossibilidade de reproduzir em todos os casos as palavras exatas pronunciadas, procurando conservar, segundo sua formulação, o sentido geral daquilo que efetivamente teria sido dito.⁴ Desse modo, elementos que posteriormente se tornariam recorrentes na historiografia antiga — investigação, testemunho ocular, consulta a participantes, avaliação de tradições, seleção de material, ordenação narrativa e reconstrução literária de discursos — já estão claramente presentes na tradição historiográfica grega. John Marincola observa que a reivindicação de autópsia e investigação junto aos participantes dos acontecimentos tornou-se um dos principais meios pelos quais historiadores antigos estabeleciam sua autoridade para narrar tanto história contemporânea quanto acontecimentos aos quais não haviam assistido pessoalmente.⁵ É nesse universo literário e epistemológico que, muitos séculos depois de Heródoto e Tucídides, surgiriam os escritos que formam o Novo Testamento.
Os Evangelhos e o bios greco-romano
Durante parte considerável do século XX, foi comum tratar os Evangelhos como uma forma literária essencialmente peculiar ao cristianismo primitivo. Essa percepção foi profundamente modificada pelo renovado estudo comparativo da literatura antiga. Particular importância teve o trabalho de Richard A. Burridge, exegeta britanico que comparou sistematicamente os Evangelhos com uma ampla amostra de biografias gregas e romanas e concluiu que suas características formais os situam dentro do amplo gênero da biografia antiga, ou βίος (bios). O impacto dessa pesquisa foi suficientemente grande para que Steve Walton descrevesse a transformação posterior como uma mudança de consenso: a posição segundo a qual os Evangelhos constituem uma espécie de biografia antiga tornou-se amplamente aceita na pesquisa especializada.⁶ É importante, entretanto, compreender o que “biografia” significava no mundo antigo. O bios greco-romano não correspondia à biografia documental moderna. Não precisava proporcionar uma cronologia exaustiva desde o nascimento até a morte, nem pretendia necessariamente reconstruir psicologicamente seu personagem segundo categorias modernas. Podia selecionar acontecimentos, palavras, ações, ascendência, relações, conflitos e circunstâncias da morte a fim de apresentar o caráter e a significação do indivíduo em questão. História e biografia também não constituíam gêneros inteiramente impermeáveis entre si; estudos recentes da literatura clássica ressaltam que havia sobreposição entre suas características formais.⁷ É precisamente nesse sentido que os Evangelhos apresentam características biográficas. Cada um deles possui Jesus como personagem dominante. A maior parte da narrativa é organizada em função de suas palavras e ações, de suas relações com discípulos, adversários e multidões, de sua atividade pública e, de modo particularmente concentrado, dos acontecimentos associados à sua morte. Mateus e Lucas acrescentam tradições sobre sua origem e nascimento; Marcos principia praticamente com o início de sua atividade pública; João emprega uma introdução teológica distinta, mas igualmente concentra sua narrativa em Jesus, seus sinais, discursos, conflitos e morte. A diferença entre suas estruturas não elimina sua afinidade genérica, pois as antigas bioi também apresentavam considerável variedade interna. Consequentemente, a identificação dos Evangelhos como bioi não depende simplesmente da constatação de que possuem “começo, meio e fim”. Essa característica seria demasiadamente ampla para definir um gênero. O argumento repousa antes na convergência de vários elementos: concentração em uma personagem individual; predominância de suas palavras e ações; seleção de episódios em função dessa personagem; caracterização indireta por atos e discursos; interesse em origem, atividade pública e relações sociais; e atenção especial à maneira pela qual sua vida termina. Burridge observa que o movimento da pesquisa contemporânea conduziu precisamente a um consenso crescente segundo o qual os Evangelhos constituem uma forma de biografia antiga.⁸ Michael Licona, estudando comparativamente os Evangelhos e as Vidas de Plutarco, igualmente observa que a maioria dos especialistas do Novo Testamento considera que a maior parte, senão todos, os Evangelhos pertence ao gênero da biografia greco-romana ou, no mínimo, mantém forte afinidade com ele.⁹ Essa classificação tem consequências historiográficas. Uma obra biográfica antiga não é, somente por pertencer ao gênero biográfico, uma transcrição documental de tudo o que aconteceu. Biografias antigas utilizavam seleção, compressão, reorganização temática, paráfrase e outras técnicas composicionais. Ao mesmo tempo, bios não significava normalmente uma narrativa inteiramente desligada de pessoas e acontecimentos que o autor considerasse pertencentes ao mundo real. Assim, reconhecer o caráter biográfico dos Evangelhos significa lê-los segundo as convenções pelas quais autores antigos narravam e interpretavam vidas, e não segundo expectativas impostas pela biografia moderna.
Lucas 1:1–4 e a declaração de um procedimento investigativo
Dentro dos quatro Evangelhos, Lucas apresenta um caso especialmente relevante para a discussão historiográfica porque seus primeiros quatro versículos constituem um prefácio formal incomum no conjunto da literatura neotestamentária. O autor declara que “muitos” anteriormente haviam empreendido a composição de narrativas sobre os acontecimentos em questão; afirma que esses acontecimentos haviam sido transmitidos por pessoas caracterizadas como αὐτόπται (autoptai), “testemunhas oculares”; declara haver acompanhado cuidadosamente tudo ἀκριβῶς (akribōs); propõe-se a escrever de maneira καθεξῆς (kathexēs), ordenada ou sequencial; e estabelece como objetivo que Teófilo reconheça a ἀσφάλεια (asphaleia), a segurança ou firmeza das coisas acerca das quais havia sido instruído. A passagem contém, portanto, uma sequência epistemologicamente significativa: existência de materiais anteriores, transmissão por testemunhas, investigação ou acompanhamento cuidadoso, ordenação do material e finalidade de produzir conhecimento seguro. Não se deve concluir disso que Lucas esteja simplesmente copiando o prefácio de Tucídides. O que se pode afirmar com maior segurança é que seu autor emprega categorias inteligíveis no contexto da prosa erudita e historiográfica helenística. A proximidade conceitual com a historiografia grega é evidente. Heródoto havia associado historíē a investigação, informações recebidas e observação; Tucídides havia salientado a dificuldade de avaliar testemunhos e a necessidade de não aceitar acriticamente a primeira versão disponível. Lucas, séculos depois, refere-se igualmente à existência de tradições anteriores, a testemunhas oculares e ao seu próprio exame cuidadoso. A analogia é metodológica, não uma demonstração de dependência literária direta. Loveday Alexander submeteu o prefácio lucano a uma análise especialmente influente e introduziu uma cautela importante. Segundo ela, Lucas 1:1–4 não corresponde simplesmente aos grandes prefácios historiográficos de Heródoto, Tucídides ou Políbio. É significativamente mais curto, não apresenta o nome do autor, é dirigido a um destinatário particular — Teófilo — e possui paralelos importantes também com prefácios de literatura técnica e científica helenística.¹⁰ A contribuição de Alexander, portanto, não elimina o caráter investigativo do texto; demonstra que o ambiente literário de Lucas era mais amplo do que uma simples imitação dos historiadores clássicos. A discussão posterior manteve aberta essa relação. John Moles procurou reafirmar conexões do prefácio lucano com a historiografia clássica, enquanto Zachary Dawson, embora critique elementos da reconstrução de Moles, conclui que Lucas 1:1–4 apresenta características convencionais da escrita de prefácios historiográficos.¹¹ O resultado é uma posição mais equilibrada: o prefácio de Lucas pertence ao universo da prosa literária helenística, partilha convenções presentes tanto em textos técnicos quanto históricos e, ao mesmo tempo, formula um claro programa de acesso a fontes, testemunho, investigação e ordenação. A semelhança com Tucídides torna-se ainda mais relevante quando se considera o uso de discursos. Tucídides explica que não podia garantir uma reprodução verbal de todos os discursos e que procurou apresentar aquilo que cada situação exigia preservando o sentido geral do que fora realmente pronunciado. Isso oferece um importante contexto para compreender os extensos discursos encontrados em Atos. O historiador antigo podia considerar um discurso historicamente relacionado a determinada ocasião sem supor que estava oferecendo uma moderna transcrição estenográfica. A composição literária e a intenção de representar acontecimentos históricos não eram, nas convenções antigas, categorias mutuamente excludentes.
De Lucas a Atos: da biografia à narrativa historiográfica
Atos dos Apóstolos declara explicitamente sua continuidade com o primeiro volume dirigido a Teófilo. Enquanto o Evangelho concentra-se predominantemente na figura de Jesus, Atos desloca o foco para a formação e expansão do movimento cristão: Jerusalém, Judeia, Samaria, Síria, Ásia Menor, Macedônia, Acaia e, finalmente, Roma formam os grandes espaços de uma narrativa na qual Pedro e Paulo recebem especial atenção, mas dentro de uma história mais ampla. A classificação literária de Atos é mais discutida do que a dos Evangelhos. Foram propostas analogias com biografia, romance antigo, épico e diversas formas de historiografia. Thomas E. Phillips, examinando sistematicamente esse debate, constatou que história era a classificação predominante na pesquisa, embora salientasse uma tendência crescente de reconhecer em Atos uma combinação mais complexa de elementos genéricos.¹² Por isso é mais cauteloso caracterizar Atos como uma obra com forte pretensão e forma historiográficas do que simplesmente identificá-lo com um único modelo clássico. Gregory Sterling por sua vez propôs uma categoria particularmente influente ao comparar Lucas-Atos e Josefo dentro do que denominou historiografia apologética: uma forma de escrita histórica por meio da qual comunidades interpretam sua própria trajetória e identidade em relação ao mundo no qual estão inseridas.¹³ Essa abordagem chama atenção para um elemento indispensável: historiografia antiga não era necessariamente uma atividade neutra e desprovida de finalidade ideológica. Heródoto, Tucídides, Políbio, Josefo, Tácito e outros historiadores selecionavam, estruturavam e interpretavam seus materiais. O fato de Lucas possuir interesses teológicos não exclui automaticamente uma intenção historiográfica, assim como os interesses políticos, morais e culturais dos historiadores clássicos não os retiram da história da historiografia. Craig Keener, em sua introdução acadêmica a Atos, observa que a compreensão da obra como uma espécie de monografia histórica antiga permanece uma posição dominante e relaciona essa classificação, entre outros elementos, ao prefácio do primeiro volume, ao emprego de fontes e à utilização de discursos.¹⁴ A questão relevante, portanto, não é escolher entre “teologia” e “história” como se fossem alternativas absolutamente excludentes. Um autor antigo poderia interpretar teologicamente acontecimentos que entendia como reais, exatamente como outros historiadores interpretavam acontecimentos por categorias políticas, morais, filosóficas ou providenciais. Loveday Alexander oferece novamente uma advertência metodológica útil. Em sua análise das fronteiras entre fato e ficção na Antiguidade, observa que Atos ocupa uma posição complexa para o leitor formado nas categorias literárias greco-romanas. Há episódios que poderiam lembrar narrativas novelísticas, mas existe simultaneamente um conjunto persistente de características que induz o leitor a compreender a obra como uma narrativa com pretensão factual.¹⁵ A historiografia de Atos, por conseguinte, não deve ser avaliada por meio de uma oposição simplista entre “todo relato é uma transcrição literal” e “todo elemento literariamente elaborado é ficção”.
Testemunho material, epigrafia e o ambiente histórico de Lucas-Atos
A avaliação histórica de Atos não depende apenas de sua classificação literária. Em diversos pontos, a obra pode ser confrontada com evidências independentes provenientes de inscrições, arqueologia, numismática e outras fontes antigas. Essas correspondências são importantes porque permitem testar determinados elementos concretos da narrativa. Um dos exemplos mais significativos é Lúcio Júnio Gálio, apresentado em Atos 18:12 como procônsul da Acaia no contexto da permanência de Paulo em Corinto. Fragmentos de uma inscrição encontrada em Delfos preservam uma comunicação imperial de Cláudio na qual Gálio aparece como procônsul da Acaia. Thomas W. Davis, no Oxford Handbook of Early Christian Archaeology, observa que a identificação é universalmente aceita e que a inscrição situa o proconsulado de Gálio aproximadamente em 51–52 d.C.; por essa razão, tornou-se um dos principais pontos de referência externos para a cronologia paulina.¹⁶ Aqui existe uma correspondência particularmente relevante: não apenas o nome de uma personagem antiga, mas nome, cargo, província e período histórico convergem com a moldura apresentada em Atos. Outro exemplo é o termo πολιτάρχαι (politarchai), empregado em Atos 17:6,8 para autoridades de Tessalônica. Durante determinado período, a raridade literária do título produziu dúvidas quanto ao seu uso. Evidências epigráficas posteriormente documentaram claramente a existência do cargo na Macedônia. Uma inscrição proveniente de Tessalônica, preservada atualmente no British Museum e originalmente associada à chamada Porta de Vardar, enumera seis politarchs, além de outros oficiais municipais.¹⁷ A inscrição hoje preservada é do período imperial romano, provavelmente do século II, e, isoladamente, não demonstra que o episódio de Atos 17 ocorreu exatamente como narrado; contudo, confirma que o título utilizado por Lucas pertence efetivamente à estrutura cívica de Tessalônica, e outras inscrições macedônicas ampliam essa documentação. O cenário de Éfeso em Atos 19 apresenta outro caso relevante. O texto utiliza a designação asiarcas (Asiarchai) e chama Éfeso de νεωκόρος (neōkoros), termo associado à condição da cidade em relação ao culto e ao templo de Ártemis. Stephan Witetschek, examinando epigraficamente esses elementos, reconhece o forte “colorido local” do relato lucano e observa que ambos correspondem a categorias efetivamente documentadas no ambiente efésio. Ao mesmo tempo, oferece uma cautela cronológica importante: determinados dados podem refletir tanto o tempo narrado quanto as condições conhecidas pelo autor em sua própria época de composição.¹⁸ Esse exemplo demonstra como evidência externa pode simultaneamente corroborar conhecimento geográfico e institucional e exigir prudência na reconstrução da data exata de cada detalhe. A evidência material também toca o pano de fundo dos Evangelhos. A chamada Inscrição de Pilatos, descoberta em Cesareia Marítima, documenta Pôncio Pilatos e seu título administrativo. Davis salienta que a identificação do indivíduo da inscrição com o governador da Judeia conhecido das fontes literárias e dos Evangelhos é universalmente aceita. A inscrição é particularmente instrutiva porque esclarece também seu título contemporâneo de praefectus, “prefeito”, enquanto Tácito, escrevendo posteriormente, emprega procurator.¹⁹ Trata-se de um exemplo claro de como arqueologia, epigrafia e literatura antiga podem ser utilizadas conjuntamente para reconstruir o mundo político no qual se situam os relatos neotestamentários. Deve-se, entretanto, estabelecer uma distinção essencial. Arqueologia e epigrafia não “provam o Novo Testamento” em bloco. Elas podem confirmar que determinada pessoa existiu, que ocupou determinado cargo, que determinada instituição funcionava naquela região, que uma cidade possuía determinada estrutura ou que um título administrativo era utilizado. Em casos excepcionalmente favoráveis, podem oferecer forte apoio a uma afirmação narrativa específica. Mas confirmar Gálio como procônsul da Acaia não demonstra por si só cada detalhe da audiência judicial descrita em Atos; identificar politarchai em Tessalônica não demonstra automaticamente todos os acontecimentos de Atos 17; e escavar o bēma de Corinto não permite afirmar simplesmente que Paulo esteve precisamente sobre aquela estrutura durante seu julgamento. O próprio Oxford Handbook of Early Christian Archaeology chama atenção para esse problema. Davis observa que a busca por correspondências diretas entre personagens bíblicos e achados arqueológicos algumas vezes conduziu pesquisadores a identificações excessivamente otimistas. O caso da chamada “inscrição de Erasto” em Corinto é exemplar: embora anteriormente tenha sido frequentemente identificada de maneira quase automática com o Erasto mencionado por Paulo, essa correspondência passou a ser fortemente questionada em razão de problemas de datação, função administrativa e contexto arqueológico.²⁰ A prudência nesses casos fortalece, em vez de enfraquecer, a análise dos casos nos quais a correspondência é efetivamente sólida.
Gênero literário, intenção histórica e historicidade
A convergência entre os elementos examinados permite formular três categorias que não devem ser confundidas. A primeira é o gênero literário. Dizer que os Evangelhos pertencem amplamente ao bios greco-romano significa classificá-los comparativamente com outras formas antigas de escrita de vidas. Dizer que Atos possui características historiográficas significa reconhecer sua proximidade com formas antigas de narrar acontecimentos coletivos e políticos. A segunda é a intenção referencial ou histórica. Um texto pode utilizar técnicas literárias e ainda pretender referir-se a pessoas, lugares e acontecimentos que seu autor considerava reais. A existência de seleção, composição de discursos, organização temática e interpretação teológica não elimina automaticamente essa pretensão. Esses procedimentos encontram analogias dentro da própria historiografia antiga. A terceira é a historicidade de cada afirmação particular. Essa questão precisa ser examinada individualmente. Algumas informações de Lucas-Atos possuem forte confirmação externa; outras são historicamente plausíveis, mas não possuem documentação independente; algumas são objeto de debate; e outras — particularmente acontecimentos miraculosos ou interpretações explicitamente teológicas — ultrapassam aquilo que arqueologia ou epigrafia, enquanto disciplinas, podem demonstrar por seus próprios métodos. Esse quadro explica por que a comparação com Heródoto e Tucídides é simultaneamente legítima e limitada. Lucas não precisa ser considerado um “Tucídides cristão” para que seu procedimento possa ser analisado dentro da história da historiografia antiga. Tampouco a existência de paralelos significa dependência textual direta. O elemento mais importante está no horizonte intelectual compartilhado: fontes anteriores, testemunhas, investigação, organização narrativa, discursos literariamente elaborados e desejo de oferecer ao leitor um relato considerado confiável.
Conclusão
A análise histórica e literária dos Evangelhos e de Lucas-Atos torna-se mais precisa quando esses documentos são recolocados dentro do ambiente intelectual mediterrânico no qual foram produzidos. A própria palavra História, derivada da grega historía, conserva a ideia originária de investigação: procurar saber, reunir informações e produzir conhecimento por meio de inquirição. Em Heródoto, esse procedimento já compreendia consulta a informantes, tradição oral, observação e ponderação de versões; em Tucídides, adquiriu uma reflexão metodológica ainda mais explícita sobre testemunho, memória, precisão e composição de discursos. Os Evangelhos surgem muitos séculos depois, mas pertencem a um mundo no qual biografia e historiografia possuíam tradições literárias estabelecidas. A pesquisa moderna demonstrou convincentemente que Mateus, Marcos, Lucas e João apresentam características suficientes para serem compreendidos dentro do amplo gênero do βίος, a biografia antiga. Sua concentração em Jesus, em suas ações, palavras, relações, conflitos e morte não constitui apenas narrativa religiosa abstrata, mas corresponde a procedimentos pelos quais autores antigos estruturavam relatos sobre personagens individuais. Lucas-Atos apresenta um caso ainda mais explícito de aproximação com a cultura historiográfica. Lucas 1:1–4 menciona narrativas anteriores, testemunhas oculares, investigação cuidadosa, ordenação e segurança do conhecimento. Embora Loveday Alexander tenha demonstrado corretamente que seu prefácio não deve ser reduzido a uma imitação de Tucídides e que possui paralelos com a prosa científica e técnica helenística, estudos posteriores continuam reconhecendo nele convenções próprias do discurso historiográfico. Atos prossegue essa obra deslocando seu centro narrativo de uma personagem individual para a trajetória de um movimento que atravessa cidades, províncias, instituições e estruturas administrativas concretas do Império Romano. A epigrafia e a arqueologia reforçam a importância histórica desse quadro. Gálio como procônsul da Acaia, os politarchai de Tessalônica, o vocabulário institucional de Éfeso, Pôncio Pilatos e diversos elementos do ambiente urbano e administrativo do Mediterrâneo romano demonstram que Lucas-Atos e os Evangelhos estão profundamente inseridos no mundo histórico do primeiro cristianismo. Tais correspondências não constituem uma confirmação indiscriminada de cada episódio, mas proporcionam controles externos pelos quais aspectos determinados das narrativas podem ser avaliados. A conclusão historicamente mais sustentável, portanto, não é que o gênero literário ou a arqueologia tenham automaticamente demonstrado tudo o que os Evangelhos e Atos afirmam. É algo metodologicamente mais significativo: os Evangelhos podem ser legitimamente analisados como biografias antigas de Jesus, enquanto Atos pode ser analisado dentro do amplo horizonte da historiografia greco-romana; Lucas manifesta consciência de fontes, testemunho e investigação, e uma parcela relevante de seu quadro geográfico, político e institucional pode ser confrontada positivamente com documentação independente. A investigação histórica deve então proceder da mesma maneira que procede diante de Heródoto, Tucídides, Josefo, Tácito ou Suetônio: não por aceitação ou rejeição global da fonte, mas pela análise crítica de gênero, intenção, fontes, convenções literárias e evidências externas em cada caso.
Notas
1. LIDDELL, Henry George; SCOTT, Robert; JONES, Henry Stuart. A Greek-English Lexicon, verbetes ἱστορία e ἱστορέω. O léxico registra para historía os sentidos de “aprendizado por investigação”, “investigação”, “conhecimento assim obtido” e, posteriormente, “relato escrito das investigações”.
2. HERÓDOTO. Histórias, prólogo do Livro I. Heródoto apresenta sua obra como a exposição de sua historíē, destinada a preservar os feitos humanos da perda de memória e investigar suas causas.
3. DE JONG, Irene J. F. A Narratological Commentary on Herodotus' Histories. Cambridge: Cambridge University Press. A autora sintetiza o método herodoteano em investigação de informantes/testemunhas, informações orais (akoē), observação direta (opsis) e avaliação racional (gnōmē). Cf. também KINGSLEY, K. Scarlett, sobre epistemologia e investigação histórica em Heródoto.
4. TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso 1.20–22, especialmente 1.22. Tucídides discute as divergências entre testemunhos, as dificuldades da memória e seu procedimento para os discursos.
5. MARINCOLA, John. Authority and Tradition in Ancient Historiography. Cambridge: Cambridge University Press, 1997; nova edição, 2025, especialmente o estudo sobre a investigação do historiador. Marincola destaca autópsia e consulta aos participantes como mecanismos fundamentais de autoridade historiográfica antiga.
6. BURRIDGE, Richard A. “Gospels”. In: LIEU, Judith M.; ROGERSON, J. W. (eds.). The Oxford Handbook of Biblical Studies. Oxford: Oxford University Press, 2009, p. 432–444; WALTON, Steve. “What Are the Gospels? Richard Burridge’s Impact on Scholarly Understanding of the Genre of the Gospels”. Currents in Biblical Research 14.1, 2015. Walton documenta a mudança do antigo consenso sobre a suposta singularidade genérica dos Evangelhos para a ampla aceitação de sua classificação como formas de bios.
7. Sobre a relação e sobreposição entre biografia e historiografia antigas, ver “What are bioi/vitae? Generic Self-Consciousness in Ancient Biography”, em The Oxford Handbook of Ancient Biography. Oxford: Oxford University Press, 2021.
8. BURRIDGE, Richard A. “Gospels”, The Oxford Handbook of Biblical Studies. O autor descreve a evolução da discussão acadêmica e o consenso crescente em torno da classificação biográfica dos Evangelhos.
9. LICONA, Michael R. Why Are There Differences in the Gospels? What We Can Learn from Ancient Biography. Oxford: Oxford University Press, 2017. Licona parte do reconhecimento majoritário dos Evangelhos como biografia greco-romana e compara técnicas composicionais evangélicas com as empregadas nas Vidas de Plutarco.
10. ALEXANDER, Loveday. The Preface to Luke's Gospel: Literary Convention and Social Context in Luke 1.1–4 and Acts 1.1. Cambridge: Cambridge University Press, 1993. Alexander demonstra tanto os paralelos com a tradição dos prefácios gregos quanto importantes diferenças entre Lucas e os prefácios dos grandes historiadores clássicos, relacionando-o também à prosa científica e técnica helenística.
11. MOLES, John. “Luke's Preface: The Greek Decree, Classical Historiography and Christian Redefinitions”. New Testament Studies 57.4, 2011; DAWSON, Zachary K. “Does Luke's Preface Resemble a Greek Decree? Comparing the Epigraphical and Papyrological Evidence of Greek Decrees with Ancient Preface Formulae”. New Testament Studies 65, 2019. Dawson critica alguns aspectos da proposta de Moles, mas considera que Lucas apresenta características convencionais dos prefácios historiográficos.
12. PHILLIPS, Thomas E. “The Genre of Acts: Moving Toward a Consensus?”. Currents in Biblical Research 4.3, 2006, p. 365–396. Phillips examina propostas de biografia, romance, épico e historiografia e identifica “história” como a classificação então predominante, embora destaque a crescente percepção da complexidade genérica de Atos.
13. STERLING, Gregory E. Historiography and Self-Definition: Josephos, Luke-Acts and Apologetic Historiography. Leiden: Brill, 1992. Sterling situa Lucas-Atos em comparação com Josefo e a historiografia judaístico-helenística dentro da categoria de historiografia apologética.
14. KEENER, Craig S. Acts. New Cambridge Bible Commentary. Cambridge: Cambridge University Press, 2020, introdução, p. 1–86. Keener trata extensamente de Atos como monografia histórica antiga, de seu prefácio, fontes, discursos e relações com outras evidências.
15. ALEXANDER, Loveday. “Fact, Fiction and the Genre of Acts”. New Testament Studies 44.3, 1998, p. 380–399. A autora examina as fronteiras antigas entre fatos narrados, ficção e historiografia e chama atenção para a posição literariamente complexa de Atos.
16. DAVIS, Thomas W. “New Testament Archaeology Beyond the Gospels”. In: PETTEGREW, David K.; CARAHER, William R.; DAVIS, Thomas W. (eds.). The Oxford Handbook of Early Christian Archaeology. Oxford: Oxford University Press, 2019, p. 47–65. Davis identifica a inscrição de Gálio como uma correspondência epigráfica amplamente aceita e registra sua importância como ponto de ancoragem para a cronologia paulina.
17. BRITISH MUSEUM. Inscrição de Tessalônica, número de museu 1877,0511.1. O bloco de mármore proveniente da região da Porta de Vardar enumera seis politarchs e outros oficiais da cidade. Ver também Davis para a documentação complementar de politarchai na Macedônia.
18. WITETSCHEK, Stephan. “Artemis and Asiarchs: Some Remarks on Ephesian Local Colour in Acts 19”. Biblica 90.3, 2009, p. 334–355. O estudo examina os asiarchs de Atos 19:31 e o título neōkoros de 19:35, reconhecendo a forte informação local de Lucas e discutindo ao mesmo tempo as implicações cronológicas desses dados.
19. DAVIS, Thomas W. “New Testament Archaeology Beyond the Gospels”. Oxford Handbook of Early Christian Archaeology. Davis observa que a identificação de Pôncio Pilatos na inscrição de Cesareia é aceita de forma geral e que o achado contribuiu para esclarecer seu título administrativo contemporâneo.
20. DAVIS, Thomas W., ibid. O autor usa a controvérsia em torno da inscrição de Erasto como exemplo da necessidade de evitar identificações automáticas entre material arqueológico e personagens do Novo Testamento e ressalta que arqueologia independente deve tanto confirmar quanto corrigir reconstruções baseadas apenas nos textos.
_________________________________________
REFERÊNCIAS
[1] LIDDELL, Henry George; SCOTT, Robert; JONES, Henry Stuart. A Greek-English Lexicon. Oxford: Clarendon Press, 1940. Verb. ἱστορία; ἱστορέω. Disponível em: "https://atlas.perseus.tufts.edu/" (https://atlas.perseus.tufts.edu/). Acesso em: 3 out. 2026.
[2] HERÓDOTO. Histórias. Livro I, Prólogo. Tradução e texto disponíveis em: PERSEUS DIGITAL LIBRARY. Tufts University. Disponível em: "https://www.perseus.tufts.edu/" (https://www.perseus.tufts.edu/). Acesso em: 3 out. 2026.
[3] DE JONG, Irene J. F. A narratological commentary on Herodotus’ Histories. Cambridge: Cambridge University Press, 2022.
[4] TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. Livro I, 1.20–22. Texto disponível em: PERSEUS DIGITAL LIBRARY. Tufts University. Disponível em: "https://www.perseus.tufts.edu/" (https://www.perseus.tufts.edu/). Acesso em: 3 out. 2026.
[5] MARINCOLA, John. Authority and tradition in ancient historiography. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.
[6] BURRIDGE, Richard A. Gospels. In: ROGERSON, J. W.; LIEU, Judith M. (org.). The Oxford handbook of biblical studies. Oxford: Oxford University Press, 2006. p. 432–444; WALTON, Steve. What are the Gospels? Richard Burridge’s impact on scholarly understanding of the genre of the Gospels. Currents in Biblical Research, v. 14, n. 1, p. 81–93, 2015.
[7] HODKINSON, Owen; GEUE, Tom (org.). The Oxford handbook of ancient biography. Oxford: Oxford University Press, 2021.
[8] BURRIDGE, Richard A. What are the Gospels? A comparison with Graeco-Roman biography. 2. ed. Grand Rapids: Eerdmans, 2004.
[9] LICONA, Michael R. Why are there differences in the Gospels? What we can learn from ancient biography. New York: Oxford University Press, 2017.
[10] ALEXANDER, Loveday. The preface to Luke’s Gospel: literary convention and social context in Luke.1:1–4 and Acts 1.1. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.
[11] MOLES, John. Luke’s preface: the Greek decree, classical historiography and Christian redefinitions. New Testament Studies, Cambridge, v. 57, n. 4, p. 461–482, 2011; DAWSON, Zachary K. Does Luke’s preface resemble a Greek decree? Comparing the epigraphical and papyrological evidence of Greek decrees with ancient preface formulae. New Testament Studies, Cambridge, v. 65, n. 1, p. 65–85, 2019.
[12] PHILLIPS, Thomas E. The genre of Acts: moving toward a consensus? Currents in Biblical Research, v. 4, n. 3, p. 365–396, 2006.
[13] STERLING, Gregory E. Historiography and self-definition: Josephos, Luke-Acts and apologetic historiography. Leiden: Brill, 1992.
[14] KEENER, Craig S. Acts. Cambridge: Cambridge University Press, 2020. (New Cambridge Bible Commentary).
[15] ALEXANDER, Loveday. Fact, fiction and the genre of Acts. New Testament Studies, Cambridge, v. 44, n. 3, p. 380–399, 1998.
[16] DAVIS, Thomas W. New Testament archaeology beyond the Gospels. In: PETTEGREW, David K.; CARAHER, William R.; DAVIS, Thomas W. (org.). The Oxford handbook of early Christian archaeology. Oxford: Oxford University Press, 2019. p. 47–65.
[17] BRITISH MUSEUM. Inscription from Thessalonica. Museum number 1877,0511.1. London: The British Museum. Disponível em: "https://www.britishmuseum.org/collection/object/G_1877-0511-1" (https://www.britishmuseum.org/collection/object/G_1877-0511-1). Acesso em: 3 out. 2026.
[18] WITETSCHEK, Stephan. Artemis and Asiarchs: some remarks on Ephesian local colour in Acts 19. Biblica, Roma, v. 90, n. 3, p. 334–355, 2009.
[19] DAVIS, Thomas W. New Testament archaeology beyond the Gospels. In: PETTEGREW, David K.; CARAHER, William R.; DAVIS, Thomas W. (org.). The Oxford handbook of early Christian archaeology. Oxford: Oxford University Press, 2019. p. 47–65.
[20] DAVIS, Thomas W. New Testament archaeology beyond the Gospels. In: PETTEGREW, David K.; CARAHER, William R.; DAVIS, Thomas W. (org.). The Oxford handbook of early Christian archaeology. Oxford: Oxford University Press, 2019. p. 47–65.
